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Gayeté
(Montaigne, Des livres)
Ex Libris José Mindlin
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PRO B L EM A ARCHITECTURA
Cir, DEMONSTRADO
POR
MATHIAS AYRES RAMOS DA SYLVA DE EÇA,
Provedor , que foi da Caza da Moeda defla Corte: e author das Reflexoens fobre a Vaidade dos Homens,
QUE DEDICA, E OFFERECE A o, SENHOR Ê GONCALO JOZÉÊ DA SILVEYRA PRETO,
aeee da Caza de Sua Mageftade , do feu Confelho , do e fua Real Fuzenda, Chanceller, e Deputado da Sereuiflima Caza de Bragan. qgà, do Confelho, e Eítadio da Rainha Mãi N, Senhora, Procu. xador da Fazenda da Repartiçaô do Ultramar, Senhor Donatario da Villa de S. Miguel de Acha, Alcaide Mór de Monçaõ , Com. mendador das Commendas de Santa Maria dos Anjos da meíme Villa , e da do Cazal do Bogalho , ambas na Ordem de Chrif« to Xc. Sc.
MANOEL IGNACIO RAMOS DA SYLVA DE EÇA.
LISBOA
Na Offc. de ANTONIO RODRIGUES GALHARDO, Impreflor da Real Meza Cenforia, MDCCLXKXVIL Com licença da mefma Real Mexa,
SENHOR GONÇALO JOZE
DA SILVEYRA PRETO.
O... » que me atrevo a
dedicar aWV S. be do mefmo auétor que compoz o da Vaidade dos Ho- mens. O unico objecto, que me obrie
de “ga
ga aimprimillo, be a gratidao de fi- lho , que quer levantar das fombras da fepultura onome de quem lhe deo ofer, e afortuna, fazendo durar a Jua memoria nefe eferito publico, confagrado à utilidade da patria. Temendo, que abrangeffe ao li- vro a difgraça , em que acabou o feu auétor , quiz bufcar-lhe bum azylo fe- guro, bum nome refpeitado, que pof= to na faxada da obra'preveniffe o pêblico a favor della. co amizade, com que V. S.bon- rou o pui;e os beneficios com que fe digna proteger o filho , uitidos à jujta reputaçao, que tem adquirido o fem refpeitavel nome ; fizeraô , que eu por obrigaçao, e por interefje bufcafe o amparo de V S. para fer bem a- ceita aobra de bum Cidadad; a quem os aggravos da fua patria naô pu- deraô arrancar do coraçaõ os fagra- dos direitos , que ella nos impoem , de dbe fer-mos uteis ; quanto as nofas
for-
forças o confentem“ Os altimos tema pos da difgraça » que encurtaraôd os “dias do auétor defie livro, talvez confirmado , quecelle era bum Cida- dao benemerito: V.:S. be.a melhor prova, de que as difgraças às vem mes feguem mais a quem be menos digno dellas.
A razad ,.e o merecimento » que nem fempre faô o efcarneo da fortuna, chamaraô a V S..aos em- pregos, e aos applauzos da.Gorte; e as jujtas providencias dos nofjos Soberanos ; unidas aos votos: do pu- blico naô quizerad deixar enterrado hum talento, que pojfo no commer- cio da vida" cival daria tanta ubilix dade: à noffa naçaô.
Se be da nutureza, que a fim Ibança.de fortunas faz mais folidas as vamizades ;xV So, que fempre mereceo fer feliz, mas que nem fem- pre o tem fido, queira. dignar-fe de. proteger nefte livro a memoria pof
thuma
sbuma de bum homem, a quem vio, correr amefma fortuna, que pertur- bou o focego de V. S. He obra de hum homem de'letras , deve achar. acolhimento nos olhos de outro. V.. S., que tem confagrado os feus. pre- ciozos annos ao efêudo fublime de manejar as leis, que [Jaó a alma do Eftado , nad fe deve defprezar de proteger buma arte , que ainda que muito inferior pela fua materia , concorre notavelmente para a poli- cia das Cortes, e dá aos Reinos as mefimas ventagens , que o ornato dá.
ao corpo. e ak Eu unindo efe benefício aos mais, com que PV. S. fe tem digna do honrar-me , olharei para todas as profperidades, que baô de encher a eftimavel vida de V. S., como para outras tantas provas de juffiz ga dos nofos Soberanos , que ar rancaô das trevas , e do efquecimen- to homens provados , em cujas maôs de-
depozitad os premios , e os caftigos dos feus povos Estes votos faz Liss boa toda ; porém com mais obrigar çaô, e com mais zelo os faz
De V S.
O Criado mais humilde, c obrigado
Manoel Ignacio Ramos. da Sylva de Eça,
PROBLEMA
DE ARCHITECTURA CIVIL
PARTE I
EFE E O E VESTE AS Ge | e—em ema meira sem aaa emana
ELPITULO E
O problema de Architectura Civil, que devemos refolver , e demonftrar , be o feguinte.
Porque razaô os edifícios antigos tinhaô , e tem mais duraçaô do que os modernos ? eeftes porque razad refitem menos ao movimento da terra quando treme ?
Sta queítaô parece facil de refolver ; porque cômummen- te fe diz que a diuturnida- de do tempo faz caldear as pare- des ( como os Artifices fe expli- A cad )
2 Problema
caô ) fazendo-as mais conglutina- das para poderem fuftentar o pe- zo do edificio , e para refiftirem ao impulío extraordinario que faz tremer a terra.
Efta foluçaô, fundada fó na divturnidade do tempo , parece me- nos bem eftabelecida : porque , ain- da que-o tempo contribue muito para folidar os muros de que os edificios fe compoem , com tudo, io he afim quando preexiftem as circumflâncias , por meio das quaes fica tendo lugar a acçaô do tempo : porém, fem a concurren- cia daquellas circumíftancias , ne- nhum tempo baíta para fazer for- te hum muro defpois de fabrica- do contra a regra dos principios.
Os artifices antigos: conhece- raô muito bem efta verdade; e os modernos tambem a conhecem :
porém
De Arcbiseltura Civil. 3
porém eftes pouco attentos á du- raçaô dos edificios , e com eco- nomia menos juíta, tem mais pot objecto a conclufaô da obra, do que a duraçaô della; e fendo efcrupu- lofos na ordem da perfpettiva, e em outras partes menos importan- tes, faô faceis na eleiçaô dos max teriaes com que fabricaô. O ponto principal eftá nos materiaes,; de cu- ja bondade , e fimplicidade depen- de a fortaleza ainda mais, que de outro artifício algum. De forte que a permanencia naô vem do ferro , nem do bronze que fe ajun- ta; eftes metaes devem fer confi- derados como adjutorios auxilia- res, e adventicios. A duraçaô pro- vém da propria fubftancia do edi- ficio, naô do remedio que fe buf- ca para o fazer forte : devemos prefuppôr a pureza da fubítan-
Au cia,
4 Problema
cia, ilto he dos materiaes; entad contribue o tempo , o ferro , eo bronze.
Porém fe o muro he feito com materiaes incongruentes, que per- manencia póde ter para fuftentar o feu mefmo pezo, e para refiftir ao movimento ? Aquelle vicio origi- nal fempre lhe ferve de obítaculo invencivel; e nefte calo nenhum tempo , ou artifício póde extrahir do muro o vicio interior, introdu= zido deíde os primeiros rudimen- tos da fua conftrucçaõ : os annos naô o fortalecem , antes o debili- taô; porque a natureza do mal he progrefliva ; raras vezes fe diminue, e quafi fempre fe augmenta.
Nos edificios antigos obfer- vamos huma exaétiflima uniad en- tre as pedras, e mais materiaes, de que os feus muros fe compunhaõ;
e to-
De Architectura Civil. 5
e todos taô confolidados entre fi, como fe foflem caminhando para de muitas pedras formarem huma fó: e com effeito vemos que nel- les he mais facil quebrar a pedra, que defunilla ; e que mais de pref- fa fe confegue o deftruir o muro pelo coraçaô das meímas pedras , que pela juntura dos feus angulos: e quando o movimento da terra; ou de outro accidente tal, induz a fatalidade da ruina , o muro naô cahe desfeito em pequenas partes; mas precipita-fe dividido em lanços; nem fe desfaz como moído em pó, mas abate-fe em troços, confer- vando de algum modo a fua figu- ra. Daqui vem que os edificios an- tigos bem moftraô que foraô fei- tos para muitos feculos. Naô fe fegue porém que os antigos tivellem melhores ope- A mi rartos;
6 Problema
rarios; porém fabiaô efcolher me- lhor. Os artifices modernos dif- penfaô facilmente na bondade, e regularidade dos Ífeus materiaes ; por vifto que os tenhaô promptos, e menos difpendiofos : contentaô- fe de fabricar para o Íeu tempo, fem fe embaraçarem do futuro ; ba- fta-lhes que a obra dure em quan- to elles durarem , deixando para os que haô de vir a trifte occupa- çaô de reconftruirem.
Por iflo vemos tantas vezes que os edificios novos, apenas aca- bados da maô do meítre , logo daô finaes de fentimento : por hu- ma parte perdem as paredes o Ífeu equilibrio vertical ; por outra fa- zem aberturas ; e por outra cof- pem os ingredientes que lhes faô contrarios. E fe fobrevém á terra algum movimento irregular , fazem-
fe
De Arebiteltura Civil. q
fe perceptíveis os defeitos , e vaô moftrando indícios infalliveis de ruína.
Pelo que fica expofto pode- mos inferir que a razaôd , porque os edifícios antigos eraô duraveis, he por haverem fido feitos com bons materiaes: ea razaô, porque os modernos naô tem a mefma du- raçaô, he porque faô cômummen- te fabricados com materiaes impro- prios. Efta he a refoluçaô do pro- blema : e para a demonítrarmos he precifo examinar quaes faô os'ma- teriaes, de que os muros fe com- poem; quaes faô as qualidades que tem os com que hoje fe fabrica, e as que devem ter , para que a obra fique permanente, e para que refifta mais ao movimento da terra quando treme.
Av CA-
8 Problema
He eme mete eee ret es pe mm
CAPITULO I. i t À bondade dos materiaes de- pende inteiramente a firmeza das paredes ( fuppondo fempre fe- rem feitas com arte, e como a arte pede) : o tempo as faz confo- lidar , quando os materiaes fe naô oppoem á Ífua acçaô. Hum com- poífto de barro , ou de qualquer terra commua , em nenhum tempo póde admittir firmeza. Ainda que a hum compoiíto tal fe lhe ajunte a melhor pedra, nunca de huma tal compoliçaô fe ha de formar hum corpo Íolido; porque o barro con- ferva fempre propenfaô para deí-
unir-fe , ou desfazer-fe na agua. “Toda a duraçaô de hum com- pofto
De Architetura Civil. <q
poíto confie em naô render-fe ao combate aétual dos elementos, A agua, e o ar faô os dous inimi- gos poderozos , que trabalhaô per- petuamente, e efficafmente a for- mar, e a defunir; a unir, e a fes parar; a fazer, e a desfazer. Ef- tes Íaô os dous agentes naturaes s contra os quaes fe deve oppor ou huma força proporcionada , ou huma materia, em que naô poílaô ter ingreflo.
O diamante he o corpo mais folido , e duravel; porque nenhum dos elementos fe póde introduzir , nem fazer mudança em alguma das fuas partes; nem os licores corrofivos, nem a agua, terra, ou ar podem caufar-lhe a mais leve alteraçaô : o fogo o mais que faz he embaciarlhe a fuperficie, fi- cando a fua uniaô intacta, e fem
ceder
10 Problema
ceder por modo algum a aquelle devorante univerfal.
Depois do diamante fegue-fe o ouro, ea prata. Contra eítes dous metaes naô tem acçaô os ele- mentos: o fogo aétivo os funde; mas, depois de fundidos , ficaô co- mo eraô, e inalteraveis na fua fubf- tancia : e fe fundidos eftivellem até o fim do mundo, fempre ef- tariam, e feriaô os mefmos tanto em pezo certo, e caraéteriítico , como nas Íuas qualidades proprias, e eflenciaes. Iíto porém fe enten- de fó a refpeito do ouro, e prata propriamente ditos; porque, fe a fi tiverem outros corpos miftura- dos, eftes haô de diflipar-fe inteira- mente,
O ouro póde fer volatilizado, e tambem a prata, fe no acto da fundiçaô fe lhe deita algum fal
vola-
De Architeétura Civil. II
volatilcom miftura de algum com- pofto, que tenha propenfaô para levar configo, ou exaltar aquelles metaes adjuntos; porém eítes, de- pois de volatilizados , infallivelmen- te confervad as Íuas propriedades naturaes; e depois de reduzidos a metal, tornaô a fer o mefmo me- tal, fem mudança, fem falta, e fem differença alguma.
Os outros metaes todos fe al- teraô, e fe perdem com a acçaô continua de qualquer dos elemen- tos; e de tal forte, que já mais po- dem tornar a fer inteiramente o que de antes foraô, O ar caufa no ferro a ferrugem importuna; ao chumbo reduz em pó; ao cobre em azinhabre; e ao eftanho em materia pulverulenta , e irreduéti- vel: o azougue refifte mais; po- rém batido tambem em agua, ou
ainda
12 Problema
ainda por fi fó, a mefma continua concuflad o muda em hum pó ne- gro de difficil reducçaô , mas nun- ca de todo reduzivel.
As pedras , cômummente cha- madas preciofas, feguem a natu- reza do vidro, mas com a diffe- rença de naô poderem fer fundi- das; e de naô poderem unir-fe de- pois de divididas como fuccede nos metaes por meio da fundiçaô. O vidro he o primeiro compoíto ar- tificial, contra quem os elementos nao tem força. E com effeito a vi- trificaçad he o ultimo termo, ou o ultimo apparato , a que a nature- za, e a arte chegaôd. Nem cada hum dos elementos, nem todos juntos podem caufar no vidro a menor mudança ; porque os corpos, depois de vitrificados, ficaôd de tal forte unidos em hum corpo fó,
que
De Árchitetiura Civil. 13
-que efte, ainda que compofto feja de dous ou mais ingredientes , naô admitte feparaçaô alguma, e com uniaô muito mais indifloluvel, do que feriaô as aguas de fontes dif- ferentes, confundidas; ou miftura- das entre fi em hum fó vazo. Depois da vitrificaçad , ou fe- ja artificial, ou feja natural ("co- mo a que fe nota em todos os crif- taes) feguem-fe outras mais com- pofiçoens, que fegundo a qualida- de das fuas partes , ou fegundo a qualidade que receberaô do artifi- cio, ficaô mais ou menos aptas pa- ra refiftirem à acçaô “dos elemen- tos. As paredes conftituem huma das mais uteis compofiçoens ; ellas fe dirigem em primeiro lugar para fuftentarem o Íeu proprio pezo; e tambem para fuftentarem o pezo dos edificios. Eftes Íad os feus dous ) obje-
14 Problema
objeêtos ordinarios ; os quaes fe ve- rificaô pouco , quando as paredes fe fazem fem arte na ordem da conftrucçaô, ou fe faô feitas fem conhecimento dos principios, iíto he dos materiaes. Pedra, cal, arêa, e agua, Jaô os quatro ingredientes de que as paredes commummente fe com- poem : porém nem toda a cal, nem toda a pedra, nem toda a arêa , nem toda a agua faô pro- prios para aquelle miniíterio ; to- dos faô proprios para fazer pare- des , mas naô paredes folidas , e duraveis. Todos fabem que ha mui- ta differença entre as pedras, aí- fim como a ha tambem entre as caes, entre as atêas, e entre as aguas. À arêa, a pedra, e a agua achaô-fe feitas naturalmente ; fó he neceflario conhecellas, para as ef- colher.
De Architectura Civil. ag
colher. A cal he producçaô da ar- te, porém tambem necefita parti- cular conhecimento para fazer del- la huma eleiçaô jufta. SERA Para a eleiçaô das pedras , bata faber que ellas naô exiftem como hoje eftaô deíde o principio do mundo, como alguns quizeraôd entender, e alguns afim o enten- dem ainda hoje; porque verdadei- ramente a natureza as fórma len- tamente, ecom arte, que Íó a ella confiou o Divino Architeéto do Uni- verfo. Os Chimicos difcorrem eru- diamente Íobre a materia da pe- trificaçad ; porém nenhum. houve até o prefente, que com fublime en- genho , ou com fegredo raro po- defle confeguir fazer huma imint- ma porçaô de pedra de qualquer efpecie, ou genero que foífe. As pedras tem ( como todas as
16 Problema
as mais coufas ) hum principio de nafcer, ou ( para melhor dizer ) de formar-fe ; a bafe da fua for- maçaô he provavelmente huma » ou mais terras unidas entre fi por meio de algum licor proprio , e pro- porcionado para aquella formaçaô; e de que para efta concorre hum liquido, tambem he muito verofi- mil; porque fe fe fizer huma abo- bada fechada de pedra em foço ( como os operarios dizem ) dei- xando-lhe fómente huma pequena abertura lateral, e adminiftrando- lhe hum fogo fucceflivo e forte, ha de ver-fe começarem as pedras a fuar, ou a deftillar per defcenfum hum liquido, alchalino. Efte tal vez que naô fofle daquella qualidade na fua primeira origem , quando começou a fazer-fe a petrificaçad ; e entaô poderia fer hum licor aci-
do,
De Architettura Civil. 17
do ; alchalizado depois pela acçad do fogo ; aflim como Íuccede ao nitro, e ao fal commum , os quaes, fendo acidos , certamente alchali- zaô-fe, fe eftando cobertos e fun- didos em valo proprio, paílao al- gum tempo pela violencia do ca- lor.
O mefmo fe vê nas cinzas dos Vegetaes, os quaes no feu eftado natural, naô moftraô , nem daô indício algum de conterem fal al- chalino fixo, e o que defcobrem faô faes acidos volateis; porém de- pois de queimados , e reduzidos a cinzas , eftas fó daô hum fal al- chalino fixo, e de nenhum modo fal acido volatil. E aflim fe mani- fefta que na formaçaô das pedras , entra com effeito hum corpo liqui- do, porque ou feja acido volatil, ou alchalino fixo , cada hum def-
B tes
18 Problema
tes he hum liquido verdadeiro ; corporizado com as terras, de que as mefmas pedras fe compoem. Sempre porém he muito in- certo o modo, com que as terras fe petrificad; e da melma forte o tempo, que gaftaô primeiro, que fe petrifiquem. A natureza efconde efte fegredo ( como outros mui- tos ) e apenas deixa ver alguma luz pouco perceptivel-, para que; podendo difcorrer fobre a materia da petrificaçaô , fiquemos fempre duvidofos ; moltra-nos os inftru- mentos de que ella fe ferve, mas naô o modo de fe fervir delles; moltra-nos o caminho aberto, por- que em mil partes vemos a terra Já petrificada , porém aquelle mef- mo caminho, he o que quafi fem- pre nos conduz a hum laberinto vago, e errante, E com
De Architeétura Civil. 19
'* Ecom effeito nem fempre pó- de fer feliz a noffa applicaçaô ; po- rém que importa que difcorrendo erremos muitas vezes , fe acerta- mos alguma vez ? Nem em tudo he avara a natureza. Muitas cou- fas uteis tem achado o eftudo ; por Mo diffe bem o que primeiro diffe: Dii laboribus omnia vendunt. Da- qui vem que experimentando Íuc- cede achar effeitos raros, e eítes naô fendo conhecidos à priori; o meímo inventor fica confufo , e interdito com a fingularidade do que acha; devendo ordinariamente mais ao acafo, do que á premedi- taçaô. À invençad da polvora, da vitrificaçao artificial, da feparaçaô dos metaes confundidos entre fi, do quadrado dos tempos, e de outros muitos defcobertos admiraveis, faô artes que a natureza vendeo pelo
B ii pre-
26 Problema
preço de huma indagaçaô conftan- te. E aflim nem fempre fe póde di- zer dos artiftas applicados , e inf- truidos o que o Poeta difle do in- feliz agricultor :
| Sed illos Expeélata feges vanis elufit ariflis.
Havendo pois na petrificaçad hum tempo de começar , para edificar naô faô proprias as pedras que fó começaô a fer , mas fim aquellas que eftaô feitas; porque tanto na petrificaçad , como na vegetaçaõ das plantas , e ainda na formaçaõ dos animaes , obferva a natureza a mefma regra , e ordem progreí- fiva. À primeira materia , ou pri- meiro elemento de todas aquellas producçoens , fempre he molle, in- digeíta , infórme , e rude; he co- mo hum cahos feminal, preparado
para
Da Archizeétura Crvil. 21
para o fim, aque a natureza dirige a fua obra : e depois de ter dife póftos os rudimentos iniciaes, ou primordiaes, recebe a mefma obra do tempo , e do calor a fua ver- dadeira, e ultima perfeiçaô.
Por iflo as pedras molles naô faô as que convém ao architeéto ; porque ainda naô faô pedras, haô de fer; he huma petrificaçaô dif- poífta, mas naô acabada ainda ; nem baífta que aquellas pedras te- nhaô adquirido algum tal, ou qual grao de dureza , mas devem ter aquella toda a que as pedras duras coftumaô chegar ordinariamente ; porque em naô fendo aflim , mal podem, fem quebrar , fuftentar qual- quer pezo fobrepofto. Além de que, naô fó para Íuftentarem o pezo de- vem fer as pedras duras, mas tam- bem para que, fendo folidas , e com-
Bi pactas,
22 Problema
paítas, naô poflaô fer penetradas pela agua , e pelo ar. Se a agua chega a penetrar os interíticios da pedra , facilmente a desfaz, co- mo por huma efpecie de diflolu- çaô; e fe naô tem dureza refiften- te, o acido doar a vai lentamen- te confumindo , e fazendo divifi- veis as Íuas partes , e ficando em termos de ceder ao primeiro im- pulfo da gravidade , ou do movi- mento.
Ifto fe obferva tambem no corpo humano , donde hum acido degenerado, corrozivo, e cauítico de tal forte corroe os oflos, que fi- caôd eftes frangiveis perdendo a fua contextura natural. Efte he o efta- do deploravel , e immedicavel da- quellas partes offendidas , quando o humor , ou acido viciofo fe ex- tende por ellas geralmente. Entaô
chega
De Arcbitetura Civil, 23
chega a hora fatal que fe efpera- va mais tarde; a economia animal perde entaô as funçoens vitaes; porque nenhum compoíto póde tubfiftir , em lhe faltando os foli- dos principaes fobre que fe eftabe- lece, e firma a fua organizaçao material.
Ito fe vê tambem nas pare- des que fe defmanchaõ, e nas que fe achaô de algum modo demoli- das, nas quaes as pedras que eraô proprias para edificar, (ainda de- pois de paífados feculos ) exiftem com a mefma dureza com que po- diaô eftar no tempo em que fe fa- bricou o edificio; outras desfazem- fe ao primeiro toque, outras já fe achaô desfeitas , deixando conca- vo, ouvazio, O lugar em que efti- veraô. Nas Íuas fuperficies planas , e
exteriores nbferva-fe melhor aquel- Biy la
24 Problema
la falta; porque na parte de donde cahe o emboço , ou reboço , que fervia de defenfa ás pedras , tendo neftas o ar hum accéilo immediato, e livre, em menos annos as pene- tra, e as reduz em pó groffeiro , deixando disfórmes , e corcomidas as paredes, | Naô fuccede aflim nas partes em que aflentaô as pedras chama- das de enxelharia , porque efta he feita commummente de pedra dura ; ealém difto, o lavramento da pe- dra, tambem a faz mais defenfa- vel contra o acido do ar; porque efte faz mais preza em huma fu- perficie tofca , efcamofa , e irre- gular , do que naguella cuja fu- perficie tem regularidade , ou efta feja plana, convexa, ou concava : por 1ffo na pedra polída nenhuma acçaô tem aquelle acido , e paíla pelo
De Aribiteltura Civil. as
pelo polimento fem fazer impref- faô nelle. Ifto procede tambem a refpeito dos metaes. O ferro po- lído dura mais tempo intaéto, do que aquelle que o naô he, o ouro, ea prata para fe diflolverem prom- ptamente nos efpiritos corrozivos , que os disfolvem , neceflitad ferem granulados , ou limados , entad fen- do combatidos por huma immenfi- dade de lugares, cedem facilmen- te ao corrozivo agente, e por hum principio femelhante , os faes piza- dos , ou em pó derretem-fe na agoa de improvizo , e fe eftaô em maça folida, refiftem mais.
Temos dito que para edificar naô fervem de nenhuma forte as pedras molles , mas fim aquellas que tem dureza competente para ferem impenetraveis á agoa , e principal. mente ao acido do ar. Porém que
acdo
26 Problema
acido he efte, ou com que fe pro- va a exiftencia delle, para nelle fundarmos huma parte da ruina de certas pedras que faô certamente reprovadas em toda a arte de edi- ficar ? Talvez que aquelle acido naô feja mais do que hum ente de razaô, e que, exiftindo fó no dif- curfo dos Chimicos ( como outros muitos) naô tenha exiftencia algu- ma na realidade.
Aflim parece fer , porque o acido do ar he invifivel , e impal- pavel, e por confequencia , in appreheníivel; e regularmente aquil- lo que fe naô vê, que fe naô acha, que fe naô toca, he immaterial, e o que he immaterial ; naô póde pro- duzir effeito phyfico , de que os fentidos fe percebem , e como as pedras, de que tratamos, mudaõ de figura ; e perdem inteiramente a
fua
De Architeitura Civil. ár
fua confiftencia, devemos afirmar que huma tal mudança provém de hum agente corporeo, e material, e naô de hum agente metaphyíico. Com tudo no capitulo feguinte moftraremos que o acido doar. he hum agente phyfico , ainda que de facto Ífeja invifivel ; porque bem póde fer invifivel, e inapprehenfi= vel, eainda aflim fer material, phyfico, e corporeo,
Eae eee mam rate
E memememeçem
CAPITULO NI.
Ar he hum elemento fluido, diafano, compreflivel, elaíti-
co, grave. Todas eftas proprieda- des fe tem achado, e demonítrado muitas vezes , e por muitos mo- dos naquelle elemento ; nem he ne- cefla-
58 Problema
ceflario moftrallo com mais expe- rimentos do que com aquelles mef- mos que fe fabem vulgarmente, e de que já ninguem duvida hoje. He porém menos fabido, que no cor- po, ou atmosfera do ar, fe efcon- de , conferva , e exifte realmente huma immenfidade de córpos , ou entes invifiveis que fó fe manifef- taô , e fazem: perceptíveis pelos feus effeitos, e em certas, e deter- minadas circumítancias. “No meímo atmosfera do glo- bo terraqueo fe fórmaõ , tem acçaõ, e reaacçaô os differentes meteóros ; a materia deítes he certamente ma- terial,e fenfivel; porém em quan- to circúla, e gira dividida em ato- mos, ou partes minutillimas , he invifivel, naô fe acha, nem fe to- ca, e nefte eftado he inapprehenfi- vel. E com effeito no ar circula huma
De Architelura Civil. 29
huma immenfidade de corpuículos terreos , Íulfureos , e oleofos ; .e Íobre tudo gira a agoa na figura de huma humidade invifivel; e if. to em toda aeftaçaô, ou fria, ou calorofa, ou humida, ou fecca. Nem fe póde duvidar que no tempo mais fereno, claro, e cali- do, fempre o ar contém huma por- çaô immenfa de agoa ; efta em quanto eftá vagando difperfa na atmofphera he invifivel, e inappre- henfivel , e fó por meio de algum artifício fe conhece a Ífua exilten- cia actual, e verdadeira. O artifi- cio confifte todo na expofiçaôd de qualquer fal alchalino fixo : efte attrahe avidiflimamente a agoa que o ar ambiente , e proximo contém; e com tanta força, que he preci- fo cuidado grande, e algum enge-
nho para confervar qualquer fal al- chali-
30 Problema
chalino fixo inteiramente izento de humidade , a qual em breves ter- mos fe faz liquida , e corrente.
O Tartaro ( que he o farro do vinho vulgarmente conhecido ) depois de eftar alguns minutos em fufaô perfeita , e em fogo que o pofla fundir perfeitamente, ape- nas tirado da maior ardencia do ca- lor, logo entra na continua attrac- çaô da agoa , ou humidade aerea, e aflim, e fem ceflar vai caminhan- do para hum deliquio , a que os artiftas chamaô commummente : Oleum tartari per deliquiums
O oleo do vitriolo, e tambem o efpirto Íulfureo , chamado /pj- ritos fulpburis per campanam , tem a mefma infeparavel propriedade , de attrahirem , e incorporarem a fi a agoa, e com a notavel , eme- nos bem entendida ainda fingulari-
dade ,
De ArcbiteEhura Cívil. 3x
dade , que tanto o oleo de vitrio- lo; como o efpirito fulfureo , aque- cem confideravelmente quando en- traô na acçaô de attrahirem a hu- midade; de que refulta fempre o phenómeno admiravel, e tambem muito pouco intelligivel , de que dous licores limpidiflimos , e frios quando eftaô feparadamente, em fe ajuntando ambos , entraô em calor taô afpero , e fenfivel, que a maô, que Íuítenta o valo, naõ o póde tolerar; e quanto mais pu- ro, e concentrado he cada hum da- quelles dous licores , tanto mais for- te, e intoleravel he o calor ao pri- meiro contacto da agoa fria.
Naô fó por aquelle experi- mento fe indica , e fe conhece a immenfidade de agoa elementar que fe encerra no ar mais puro , mais fereno , e calido , mas tam-
bem
32 Problema
bem por outros muitos, por meio «dos quaes fe defcobre infallivelmen- te que na vaga regiaô da atmoÍphera fe dá, e exite invifivelmente o cor- po phyfico da agua ondulando em partes minutiflimas, e impercepti- veis, que fó fe fazem vifiveis , e apprehenfiveis, quando por algum artifício , ou ainda naturalmente condenfadas., e juntas as mefmas partes tomaô corpo apparente , e manifefto , em que os noflos fen- tidos o podem diftinguir , e pers ceber.
Defte principio póde dedu- zit-fe huma efpecie de paradoxo ; e vem a fer, que em viagens dila- tadas fobre o mar, e ainda por ter- ra, e por lugares aridilimos , e faltos totalmente de agoa , eta nun- ca póde faltar em havendo lenha; porque fem outro provimento , nem
appa-
De AribiteéiuraCiuil. 33 apparato mais que o de hum lam- bique., e de certa porçaô de qual- quer fal alchalino fixo , ou de hum efpirito vitriolico , ou fulphureo , em qualquer parte do mundo, eem todo o tempo, fe póde ter agua pu- riflima, limpiflima , e clariflima , por meio da deftillaçad bem orde- nada , porque neíta fó fe adquire a agua que o fal alchalino fixo, ou o efpirito vitriolico attrahio , fican- do eftes feparados no fundo do vas fo deftillador , e ficando fervindo fempre de iman perpetuo , incor- ruptivel , e proprio para o mef- mo ufo.
Bem he verdade que efte ex- pediente naô póde ter lugar, nem he de faéto praticavel, quando fe neceflita de agoa para muitos ; por- que a operaçaô de deftillar, que exi- ge indifpenfavelmente carvad , ou
lenha,
34 Problema
lenha ; feria impraticavel neffe ca- fo ; e commumente o meímo he naô poder fer, que poder fer com muita difficuldade. Porém como tu- do póde ter lugar , e fer util em certas, e determinadas circunitan- cias; fe fuccedeíle o fer hum Prin- cipe , para quem fofle a agoa ne- ceffaria , facilmente poderia exe- cutar-fe aquelle expediente ; por- que o que he impoflivel para os mais homens , muitas vezes nado
he para os homens Principes. Aqui podemos difcorrer tran- fitoriamente fobre a queítaô tantas vezes debatida , de fazer a agoa do mar potavel. Eíta queítad tem fi- do com efeito o trabalhofo obje- Cto da maior indagaçaô ; porém fempre com a infelicidade de fer infruétuofa ; e por mais que os maiores engenhos, e que os artif- tas
De Arcbitettura Civil. 35
tas mais experientes fe tenhaô ap- plicado ; nunca o Íuccello corref- pondeo ás efperanças. Nem o pre- mio promettido por hum Parlamen- to heroico , illuítre , e formidavel (fallo do Parlamento de Inglater- ra) nem a gloria de huma inven- çaô taô util, e defejada ; nem a vaidade de achar o que tantos tem bufcado inutilmente , nada tem bafs tado para confeguir-fe aquelle fim, a difculdade eftá toda em feu vi- gor.
Os que entenderaô haver def atado o nó allucinarad-fe a fi mef» mos, e a agoa do mar fempre fe tem moftrado invencivel , e indo- mavel. Por iflo os Philofofos antigos indicaraô o Oceano na figura de hum leaô feroz, e rugiente; ecom effeito a fortaleza das agoas do mar naô confifte fó na intumefcencia , C ii e vaf-
36 Problema
e vaítidad das fuas agoas , mas tam= bem no vinculo indiffoluvel das fuas partes , ou de alguns dos feus prin- cipios. Só o fal dá o mar liberal- mente, e fem fadiga, ficando infu- peravel o nexo da fua parte ethe- rea, bituminofa , e inflammavel; nefta refide pertinazmente a impo- tabilidade das fuas agoas. O ele- mento aqueo de tal forte fe acha unido eftreitamente , e individua- mente .ao elemento fulphuréo , e bituminofo , que deftes dous Íujei- tos fe póde dizer : Eritis duo im carne una. Rota E para mais admiraçaô, deve-
mos refletir que, exceptuando as -pedras preciofas , raros faô os cor- pos em que a Chimica inftruida nad pofla analyzar os feus principios ; dividindo-os , e feparando-os , igme duce » e tornando-os a ajuntar de- pois.
De Architeclura Civil. 37
pois. Em prova difto, fupponha- mos huma maça compofta de to- dos os metaes , a que a fundiçao reduzio a hum fó corpo , e eíte uni- do exaétamente como o poderiad fer entre fi as aguas de diferentes rios , de differentes fontes , e de dif- ferentes regioens. Aquella maça fa- bricada de fete metaes diverfos ad- mitte-feparaçaô , e defuniaõ de to- dos; tornando cada hum delles a recobrar a fua propria condiçaô , o feu proprio pezo ; e a fua propria indole. ) Os mineraes, que já da terra, donde concrefcerad , vem aflocia- dos, ou mifturados entre À, e ain da com outros corpos naô mineraes tambem admittem divifaô , ou fe- paraçaô , e cedem facilmente ao artifta que os fabe feparar. A agoa do mar; porém renite, ou refifte O ui a toda
38 Problema
a toda a arte, a todo o engenho , ea toda a inveítigaçao ; a Íua par- te bituminofa , fegue obltinada- mente a parte volatil, e puramen- te aquoza ; huma, e outra fe acom- panhaô em todo o tempo, em to- do o lugar, e em todo o eitado. O fogo , que volatiliza a parte aquo- fa, tambem volatiliza a bitumino- fa, e por mais que feja adminif- trado brandamente , e com calor fummamente diminuto, nem afim fe póde feparar da agoa aquelle bi- tume natural. Nefte confifte a im- potabilidade , e naô no fal; porque efte he feparavel fem trabalho. E aflim fe vê que, ainda que pareça facil a intençaô de fazer a agoa do mar potavel , he com tudo empe- nho de execuçaô difficultofa , e he talvez o que naô ha de confeguir-fe nunca.
Afen-
De AÁrcbiteélura Civil. 39
Affentando pois, que o ar contém realmente em fi, e invifi- velmente huma immenfa , e inex- haurivel porçaô de agoa , devemos moftrar que tambem , e do mef- mo modo encerra outros muitos, e diveríos corpos. O fumo dos vege- taes queimados , entraô continua- mente na efpaçofa regiaô do ar, e nelle fe vai dividindo, ou efpalhan- do fubtilmente até que fica invifi- vel, e inappreheníivel; e neíta fitua- çaô naô o podemos ver, nem to- car, nem diftinguir; e fe advertir- mos, ou fizermos reflexad fobre as partes, de que o fumo fe compoem, acharemos certamente que o fumo leva comíigo naô fó os principios phlegmaticos, unétuofos , e vola- teis , mas tambem os principios terreos , e fixos.
líto fe comprova com o que
Civ cha-
40 Problema
chamamos commumente ferrugem de chuminé ; efta fempre contém (ainda que feparados ) todos os principios que continha o vegetal queimado ; ifto he, humor aqueo ;; fal volatil, oleo effencial , terra; efta fe acha na ferrugem volatili- zada com os mais principios, a que eftava unida; condenfando-fe nos lados , e alto das mefmas chumi- nés. Se depois que extrahirmos a ferrugem a pozermos ao fogo ar- dente em vafo proprio, diflipada com o fogo a unétuolidade da fer- rugem, lixiviando-fe o refiduo, acha- remos hum fal alchalino, fixo ; e extrahido efte, o que fica he ter- ra pura , a que alguns chamaraõ terra virginal. Quando hum vegetal fe quei- ma em lugar defembaraçado , e fem o preceito da chuminé , nem de
De Architeélura Civil. qr
de outro qualquer , todos os feus principios fe diffipaô no ar intei- ramente (exceptuando as mais pe- zadas, de que a cinza fe compoem ) ficando invifiveis nelle naô fó o fal volatil, e oleo eflencial, mas tam- bem a maior parte da terra fixa; entaô a tenuidade fumma das mef- mas partes terreas as faz inappre- heníiveis, e fem o corpo neceíla- rio para fazerem fenfaçaô nos nof- fos olhos ; e defta forte a terra, re- duzida a átomos leviflimos , acha- fe como fufpendida , e vagando em toda a capacidade da atmoíphera. Os corpos mineraes, e metallt- cos faô certamente os mais compa- étos, e pezados que conhecemos ; e ainda fendo aflim , recebem (por varios modos) huma tal divilaô , e attenuaçad, que, depois de volati- lizados , ficaô pezando menos do que
42 Problema
que a columna de agoa que os fuf- tenta. Iíto fuccede , geralmente naô fó por operaçaô da natureza, mas tambem por obra da arte. Da- qui vem que o ouro diflolvido na agoa , a que os artiftas chamaô ré- gia (por fer o diflolvente proprio daquelle régio metal), e a prata diflolvida em agoa forte ; os ou- tros metaes, e mineraes, diflolvi- dos tambem nos feus diflolventes particulares , ficad adquirindo hu- ma divifad taô grande, que podem eftar fufpendidos , e invifiveis nos menítruos em que fe diflolveraõ , e fó fe fazem perceptiveis, e mani- feftos por meio da percipitaçaô ; porque nefta o corpo, que faz a pre- cipitaçaô , occupando o lugar do corpo diflolvido , efte entaô fe precipita ao fundo do valo, e tor- na a tomar fórma vifivel. O mef-
mo
De drcbitetlura Civil. 43
mo fe confegue em fe enfraquecen- do, ou deftruindo por algum mo- do a força, e vigor do menítruo ; porque perde aflim a actividade, que tinha para Ífuftentar em fi o pezo do corpo diflolvido ; e o deixa cahir ao fundo.
Além de outros exemplos , que fervem de provar o que fica expof- to , temos hum na difloluçaô da prata em agoa forte. Efte corrozi- vo depois de diflolver aquelle me- tal fica diáphano , e confervando a fua mefma tranfparencia. À pra- tasque he hum dos corpos mais com- paítos , e pezados ( exceptuando fómente o ouro, eo azougue ) af- fim que fe diflolve naquelle diffol- vente, fica fufpendido nelle, e in- viífivel, e para manifeftar-fe, e to- mar corpo perceptivel, he precifo diflolver-fe outro qualquer corpo
com
44 Problema
com que a agoa forte tenha mais analogia : para efte intento ferve o cobre , o qual diflolvendo-fe tam- bem na mefma , agoa que já tinha em fi diílolvida a prata, efta tor- nando a tomar o feu pezo caracte- ríftico, promptamente fe precipita ao fundo.
Todas as agoas vitríolicas con- tém naturalmente hum ferro diílol- vido, o qual fe moftra em fe eva- porando as agoas que o contém; e do mefmo ferro provém as virtudes medicinaes, que a aquellas agoas fe attribuem. Quando fe evaporaõ , alguma porçaô de ferro tambem com ellas fe evapora ; e entaô en- tra o ferro a exiltir, e a ter a lua fubfiftencia na atmofphera, Aflim mudaô de patria , e de lugar os corpos mais pezados , rolando na esféra mobiliflima do Ar aquelles
mef-
De Arcbitetiura Civil. às
melmos , que em eftaçaô immobil, e permanente , rnafceraô nas entra- nhas concavas da terra.' Naquella mefma habitaçaô , e por modo fe- melhante, fe acha também o ouro, a prata, e todos os metaes. Pare- ce que tudo fe encontra em cada hum dos elementos , e que: cada hum deítes he patria commua. -: Os metaes concrefcem na ter- ra5-mas ainda fe naô fabe-com cer- teza , fe he a Terra que os produz; ou fe mais verdadeiramente os pro- duz aiÃgoa, o Ar, ou oFogo; defte fabemos que procedem varios corpos, que a terra ( ao noílo ver) coftuma produzir. Quanto he para admirar 'que qualquer vegetal quei- mado fica em breve efpaço redu- zido a cinzas, e que neítas fempre «achamos terra pura, vidro, pedra, ferro, chriftaes opacos , fal a ino
46 Problema
lino fixo. Que materias diferentes provindas de huma .fó , e identica materia! Que pouco tempo foi pre- cizo para fazer mudanças taô di- verfas! Daqui parece que fe fegue que tudo, quanto o fogo produz; he de repente; os outros elemen- tos naô tem acçoens taô vigoro(as, e aprefladas.
Quem diflera que ina cinza Cfimplicifima ao noflo parecer) fe acha fal alchalino fixo , chriftaes opacos , ferro , pedra., vidro, e terra pura ? porém achaô-fe com effeito; porque a agoa defcobre o fal alchalino fixo; o iman moftra certamente o ferro; e por meio do fogo fe conhece infalivelmente o chriftal opaco , o vidro, a pedra , eaterra pura; ofogo, que produ- zio todos eftes mixtos, he o rigo- rolo ; e perpetuo examinador da
natu-
De drchivectura Civil. 47
natureza de cada hum delles; por« que tudo, o que fe funde , e adquire tranfparencia , he vidro, tudo o que fe naô funde, e recebe efpiri- tos igneos em feus poros, he pedra, tudo o que tambem fe naô funde ; nem recebe efpiritos alguns , he terra; e tudo o que nad fe funde , e conferva tranfparencia , he chrif- tal. Algumas excepçoens padecem eftas regras; porém as regras fem- pre ficaô fendo taes, naô obftantes as Ífuas execepçoens. As agoas vitriolicas ( como
Já diflemos ) contém ferro, e elte fendo o principio da côr efcura , negra , ou, parda acha-fe involvido naquellas agoas fem lhes commu- nicar a menor côr. À evaporaçad manifefta huma parte do ferro , porque efte fica no fundo do valo evaporante; a outra parte do mef- mo
48 Problema
mo ferro fobe com o fumo, ou va- por da agoa que fe exhala ; .e nef- ta fórma temos efte metal grofTei- ro, e tambem pezado vagando fuf- pendido na atmoíphera; e ifto por- que ficou .dividido'de tal forte por meio da difloluçaô , que cada hu- ma das fuas minutiílimas porçoens ficou pezando menos que a colum-
na da atmofphera que as fuítenta. Acontece o mefmo a todos os metaes, e ainda. ao ouro, com fer o corpo mais pezado que conhece- mos; porque fe ao ouro na fundi- çaô lhe juntarmos o fal chamado armoniaco , efte incitado pelo fo- go, unindo-fe eltreitamente ás par- ticulas do metal; Íuccellivamente o vai arrebatando , Ífublimando-fe hum, e outro até defapparecerem na vaga regiaô do ar. Os Chimicos antigos, que efcreviaô fempre para- bolica-
De Architettura Civil. 49
bolicamente, chamaraô a aquelle fal Aquila Ganimedis , alludindo á propriedade que tem de levar com- figo naô fó todos os metaes, mas tambem muitos outros mixtos ; a que fe junta.
O. meímo intento fe verifica com efle experimento meu. Se fe fundir o ouro com oito ou mais partes de antimonio em hum ca- dinho Hefliaco coberto com outro cadinho igual, tapadas as junturas exactamente com qualquer compo- fiçaô glutinofa e forte, confervan- do fempre o ouro, e antimonio fundidos no Athanor, ( ou forna- lha a que os Artiftas chamaô piger henrricus , porque adminiftra hum calor continuado , e fempre: igual no meímo grao de actividade ) e ifto por tempo de hum mez, ou mais; canfórme o pedir a exigen-
cia
so Problema
cia da operaçaô, e fegundo a maior, ou menor quantidade de ouro fun- dido , deftapando-fe depois o tal cadinho, nelle fe naô ha de achar nem ouro, nem antimonio algum, nem ainda veftigios de haverem ef- tado alli; ficando além diíTo illefos os cadinhos , tanto na regularidade da figura , como na ordem dos feus póros. Com tudo pelos mefimos pó- ros fe evaporarad inteiramente o ouro , e o antimonio depois de vo- Jatilizados pela continua acçaô do fogo,
Que fe volatilizem os faes pe- netrando , rompendo , e fahindo dos vafos em que fe fundem , naô he para fe admirar ; porque os faes tem commumente a propriedade conhecida de lacerar , e de rom- per qualquer corpo folido ; aílim como naô he tambem para admi-
rar
De Architettura Civil, sr
rar que a agua pafle , ou fe filtre pelos póros do vafo terreo em que fe acha; porque tanto aagoa , co- mo os faes ( exceptuando os alcha- linos fixos ) naô faô entidades que refiftaô , por ferem volateis por fi mefmos, e ajudados pelo ardor do fogo entraô facilmente em to- tal defuniaô, e exaltaçaô das fuas partes.
O ouro porém he hum corpo compaétiflimo , e fixillimo , e por io naô paíla nem ainda pelos pó- ros da cupella , por onde aliás (ex- ceptuando a prata) todos os me- taes, e mineraes paílaô prompta- mente , e da melma forte que a agoa penetra, e fe imbebe nos pó- ros de huma efponja. O Virrum Sam turni ( e à fua imitaçaô todos os me taes, e mineraes vitrificados ) pe- netra quando eftá fundido, e paíla
li os
É Problema
os vafos, de qualquer compofiçad que feja6 ; nem fe tem achado meio para lhe tirar, ou impedir aquella força: porém nefte calo o Vitrum Saturni , e outros femelhantes, dei- xaô lefos , e como rôtos os cadinhos, ou outros quaeíquer vafos , naquel- le lugar determinado em que os pe- netraô , e por onde fahem. E aflim naô he facil de defcobrir qual feja a razaô phyfica por onde o ouro junto ao antimonio foge, e feex- hala totalmente do cadinho , fican- do efte illefo , e fem a menor ro- tura, ou abertura. O phenómeno, porém he certo; porque o ouro fe exhala , e no ar defapparece.
O mefmo intento fe compro- va com a luna cornea, a qual tam- bem fundida fe evapóra em gran- de parte. O eftanho, e o cobre, fe eftando fundidos ; fe lhes junta o ni-
to,
De Architetlura Civil. 53
tro, tambem fe diflipaô igualmen- te » deixando hum pequeno reíiduo, a que chamaô os artiftas , Capat mortuum. O azougue, que he o cor- po mais pezado depois do ouro, e prata, por meio de hum calor bran- do, e fucceflivo, tambem fe difli- pa, e evapóra totalmente fem dei- xar veítigio , ou fignal algum da fua exhalaçaô. Em todos os referi- dos corpos , o que o calor (mais, ou menos forte ) faz he rareficar as fuas partes, e reduzillas a parti- culas, como indivifiveis, e por con- fequencia tenuiílimas , e levifli- mas ; neíte eftado de divifaôd , ou de defconjuncçaô , bufcaô aquel- las meímas partes o ar, ficando nek- le fufpendidas ; e ifto pelo princi- pio univerfal, de que pezaô menos do que as colunas do ar, em que fe fuftentad.
E +
54 “Problema
Daqui póde inferir-fe , e tirar- fe a explicaçaô de alguns phenó- menos hiftoricos, quando fe con- ta que nefta regiãô chovera ferro , naquella cobre , em outra pedras, &c. Fides fit penes auétorem; po- rém a pollibilidade de faétos feme- lhantes; póde deduzir-fe facilmen- te pela certeza que ha de outros phenómenos, ou naturalidades, que fendo verdadeiros, ainda faô mais difficeis de explicar. E com efeito póde talvez chover azougue, quan- do fe evapóra efte metal ao fogo, ou quando os calores fubterraneos o
x =” . . evapórad nas minas proprias, em que aquelle metal fe cria ; entaô fubindo os vapores mercuriaes , e achando em certa altura humidade fufficiente que os ajunte, e conden- fe, a chuva ha de arraftar precifa- mente , e trazer comfigo o azou-
gue
De ArchitelluraCivil. ss
gue já unido com algumas das fuas partes , e tendo já pezo maior , e mais proporcionado para nao poder fubfiftr no ar.
Efte azougue porém 'naô he producçaôd do ar, nem he propria- mente chuva de azougue ( como fe diz ) mas he o mefmo que exha- lando-fe da terra, ou já por calor artificial, ou por fogo fubterraneo, adquirindo,pela conjuncçaô das fuas partes divididas, maior volume, e por confequencia maior pezo , ca- he como precipitado fobre a terra, de donde fe havia exhalado antes. Ifto he poflivel que fucceda a ou+ tros corpos diferentes ; e deve fuc- ceder aílim naquellas mefmas , e fuppoftas circunftancias ; ficando por efte modo muito facil de ex- plicar aquelles taes phenómenos , de que a Hiftoria faz mençaô ; fican-
D iv do
56 Problema
do com effeito naô Íó explicaveis » mas provaveis.
Sempre he certo , que todos os corpos, que admittem hum certo grao de divifaô, e attenuaçaô, e que além difto podem fer impellt- dos por algum meio a elevar-fe ou fubir ao ar , ficando nelle fuí- pendidos, e em continua agitaçaô; por outras caufas , e por outros movimentos tornad a entrar, e'a bufcar a fuperficie, do globo terra- gueo , de donde fahiraô; Íucceden- do aílim em muitos, e diverfos cor- pos, huma perpetua -circulaçaõ , ou circumvoluçaô de hum elemen- to para outro.
Naô he porém facil de perce- ber, nem de explicar o modo fa- bido , e certo, porque em muitas regioens fuccede em alguns tem- pos, choverem fapos. Deita natu-
ralida-
De Anbireliura Civil. 37
ralidade ninguem duvida, ao me- nos aquelles: que tiveraô occafiad de vers: e viraô com effeito muitas vezes aquella repentina producçaô, e nafcimento : com tudo o calo naô he menos verdadeiro, e fuc+ cede regularmente aílim. ,
Em eftaçaô ferena, e eftiva, quando a fuperficie da terra fe acha quente , e a meíma fuperficie em pó fubtil, fe fobrevém fubitamente hu- ma trovoada, e a efta fe fegue lo- go chuva , no meímo inftante, que as primeiras pingas de agoa cahem fobre a terra, vê-fe entaô huma im- menfidade de fapinhos, faltando de huma parte para outra, e buícan- do os lugares abrigados , como faõ os encôitos das paredes nas partes em que asha; e ifto para evitarem a moleftia das agoas: que haô de vir a correr por alli meímo. Examina-
dos
s8 Problema
dos eftes animalejos , abhad-fe fer verdadeiros fapos naô Íó na figura exterior, mas em todas as fuas pro- priedades , gerados , e naícidos ao primeiro contaéto da agoa na ter- ra pulverulenta. Naô Ífendo efte fa- Eto ambiguo , ou duvidofo , com tu+ do he de explicaçaô ardua , e ter-fe- hia por fabulofo, e impoífivel (co- mo outros muitos de que fazem mençaô os naturaliftas ) fe naô fo- za vifto , e obfervado infinitas ve- zes nas partes em que coftuma acon- tecer.)
E na verdade faz-fe violento o crer que hum animal pofla pro- duzir-fe fem a concurrencia de hum principio feminal antecedente. Hum contaéto momentaneo parece que naô póde formar muículos perfei- tos, arterias, vêas , fangue , iní- tinto. Neíte cafo a poflibilidade
veri-
De Architeciura Civil. 9
verifica-fe 4 pofteriori ; é nunca poderia: conhecer-fe por outro mo- do , nem por raciocinio algum. Pa- ra aquella producçaô devemos en- tender que concorre o ar, a agoa, e a terra , modificados , ou difpoftos eítes elementos para femelhante creaçaô ; a fórma porém, com que aquelles elementos fe difpoem, e modificaô , feria trabalho perdido o inveftigar.
Nefte cafo nad podemos di- zer propriamente que chovem fa- pos, nem que eftes fe fuftentem no ar, de donde cahem; porque na- quellas mefmas agoas, recebidas em vafos, naô fe encontraô fapos, mas precifamente quando cahem fo- bre o pó da terra quente. À rari- dade eftá em receberem aquelles a fua fórma perfeita, e difiinétiva no mefmo inftante , ouadto de naf-
cer;
do Problema
cer, e de nafcerem fem dependen- cia alguma de outro animal da mef- ma eípecie.
Se quizermos dizer que huma producçaô tal he parto da corrup- çaô, contra illo teriamos o modo com queraquella meíma producçaô: fe faz; além de naô fer ainda muito certo o axioma de que a corrupçaô de hum he geraçad de outro. No facto mencionado obfervou-fe fem-. pre; que o nafcimento dos fapos fó provém quando a terra eftá fum- mamente fecca , e reduzida a pó na fuúperficie por caufa da mefma fequidad; e nefte eftado naô pó- de haver corrupçaô na terra; por- que nenhum corpo fe corrompe: fem a prefença de humidade , e donde a naô ha naô póde ter lugar a corrupçaôd ; antes para efta fe: impedir he feguro meio o impe-:
dir
De Architeétura Crvil. 61
dir todo o commercio de humida- de com o corpo que fe quer prefer- var de corrupçao.
E ainda fem fer por aquelle fundamento, he tambem certo que nenhuma corrupçaô fe faz em hum inftante ; a natureza naô corrompe; nem produz fem tempo , ou mais ou menos progreflivo , fegundo a qua- lidade da producçaô ou corrupçad» Hum inftante verdadeiramente nad he tempo , ainda que o tempo fe compoem de inftantes; cada hum deftes podemos confiderar como hum ponto mathematico, em que naô ha partes algumas, ainda que de pontos fe fórma qualquer parte. E aíflim do nafcimento momentaneo daquelles animaes immundos , o que podemos dizer he fer hum phenó- meno do numero daquelles que fe nãô podem explicar phyficamente ; ; dos
62 Problema
dos quaes ha muitos que, para fe explicarem , he neceílario entrar em fuppofiçoens gratuitas , ainda menos explicaveis, e nunca de- monitraveis.
Outros phenómenos admira- veis ha, que fe entendem fer pro= ducçoens dos meteóros , e que tem no ar o Ífeu nafcimento proprio ; hum deiles he a pedra chamada de corifco , a qual o vulgo crê fer hu- ma pedra verdadeira que cahe da nuvem ao mefmo tempo que o raio a rompe ; porém efta credulidade fó fe funda em hum abufo popular; porque nunca fe obfervou que fe- melhantes pedras vieflem do ar, ou defceffem delle com o raio : elfte naô he mais do que hum globo de fogo de huma intençaô , ou aétivi- dade immenfa ; por iflo penetra ra- pidiflimamente os corpos mais cora-
paétos,
De Arcbirettura Civil. 63
paftos, deixando apenas hum fig- nal breve no lugar em que os pene- tra , e naquelle por onde (ahe; e quando acha mais forte refiftencia , quebra ; até que ondulando diver- famente, perde a força do movi- mento , porque fe extingue a ma- teria em que confiftia a fua inflam- maçaô.
Bem he verdade que na terra fe encontraô muitas vezes humas pedras chamadas de corifco ; eftas fomentaraô o abufo commum de que tinhaô cahido com o raio; mas eita idéa naô fubíifte já, ( ainda que alguns a querem fuftentar ain- da ) porque a Phyfica inftruida defpreza tudo aquillo que naô tem na experiencia hum fundamento cer- to ; admitte as raridades que po- dem fer examinadas, naô aquellas que, naô podendo examinar-fe , o
e
64 Problema
fe eftabelecem em huma tradiçaô «mal entendida , recebida ligeira- mente, e fem exame. E com effei- to a pedra que vemos, e a que chamaôd de corifco, he mui folida, e pezada para proceder de huma repentina formaçaô. dos meteóros : ella he producçaõ da terra , naô do ar; porque nefte fó podem ter fir- meza aquelles corpos , cujas partes admittem huma fumma divifaô fem perder em cada huma dellas a Ífua figura natural, e que juntando-fe depois humas com as outras, retém aquella mefma figura em maior vo- lume: as pedras naô faô alim; por- que, fe forem reduzidas a partes mi- nutifimas , eftas, ainda que venhad a ajuntar-fe, nunca tornada tomar a figura antecedente , Íolida, e com- paéta. E aflim quem difler , que vio cahir huma pedra de corifco ,
ou
De Architeélura Civil. 65
ou o medo o fez allucinar , ou quer que os outros fe allucinem.
—emeames remeter re me rem
CAPITULO IV.
E tudo , o que fica expoíto af-
fima ; fe conclue que na at- mofphera, ou regiaô doar fe acha hum grande numero , e grande quantidade de corpos invifiveis , e inapprehenfiveis, entre os quaes de- ve contar-fe o acido que corróe as pedras que lhe naô refiftem por fal- ta de dureza Íufficiente. E fuppofto que tenhamos já moftrado com al- guns experimentos , que no ar fe achaô com effeito muitos corpos fo- lidos que fó fe manifeítaô em cer- tas circumítancias , e por certos mo- dos; com tudo ainda naô moftrá- E mos,
66 Problema
mos que entre aquelles corpos in- vifiveis fe ache tambem hum acido invifivel. Naô faltaô provas, de que poífa inferir-fe com probabilidade bem fundada, que no ar naô exif- te acido algum material que caufe defuniad na contextura das pedras molles , que como fica dito, faô Juftamente reprovadas para toda a forte de edificios.
À primeira , e principal prova confifte na certeza que temos,de que expondo-fe algum, ou muito tem- po ao ar qualquer vafo aberto , e cheio de agoa , efta examinada de- pois tanto pelo fabor , ou gofto, como por outro qualquer meio , nenhum indicio de acido fe ha de achar na agoa , aflim expolta ao ar; fendo ( ao que parece ) indubita- vel, que fe o ar contiveíle acido al. gum material , efte paflando con-
tinua-
De Architeblura Cívil. 67
tinuamente , e immediatamente fo-- bre a Íuperficie da mefma agoa, nella fe diflolveria, e a agoa ficaria logo recebendo o fabor do fal, e efte fe acharia em fubftancia folida, e vifivel em fe evaporando a agoa. Efte argumento he de foluçaõ diffi- cil, e feria decifivo contra o acido doar, fe naô tiveílemos outros de igual, ou maior força para eftabe- lecer a inexiftencia delle.
A fegunda prova, e da melma natureza que a primeira, he tirada de todos os faes alchalinos fixos, ou volateis; os quaes fendo expof- tos ao ar, ou feja em fórma folida; ou em fórma liquida , fe no ar pre- exiftifle qualquer acido que foffe , efte fe incorporaria , e introduzi- ria naquelles faes , e de alchalinos os faria neutros: o que porém naô fuccede aflim ; porque a expoliçaô
E ii ao
68 Problema
aoar, naô muda a qualidade dos alchalicos, ficando eftes confervan- do os feus proprios caraétéres , e todas as Íuas qualidades efpecificas.
Em terceiro lugar, a diflolu- çaô diáphana de qualquer fal alcha- lino fixo, ou ainda volatil, ver-fe- hia turvar-fe , e perder a tranfpa- rencia , fe houveíle qualquer act- do no ar; o que porém nunca fuc- cede aflim; porque aquella diflolu- çaô , expoíta muito tempo ao ar em vafo aberto, e defcoberto fempre , nem poriflo fe turva, e guarda a mefma claridade fempre ; e iíto fer- ve de indício claro de que o ar naô contém particulas acidas em fi: Eftas faô as objecçoens mais fortes que induzem a inexiftencia total da- quelle pretendido , acido de que fe fuppoem abundante o ar, e de que entendemos proceder a corrofaô das pedras. Naô
De Architeetura Civil. 69
Naô obítantes porém aquel- las objecçoens fundamentaes , nem por iflo fica vacillante a exiftencia do acido propoíto ; porque efte bem póde eftar no ar, fem que fe diflolva nas agoas que encontrar, e fem que mude os alchalicos em faes neutros. Etta propofiçaô póde demonftrar-fe por varios modos. E com effeito fe em huma camera fechada fe evapo- rarem os efpiritos falinos do fal com- mum, do nitro, do vitriolo , e outros, eítes acidos haô de eftar ( depois de exhalados) no ar ambiente da meíma camera, fem que por io fe incorporem, ou embebad nas agoas, que eltiverem dentro em vafos deí- cobertos ; e da mefma forte os al- chalinos pela juncçaô dos meímos acidos fe naô haô de mudar para faes neutros.
Bem he certo que a exhalaçaô
E in (pre-
zo Problema
(preza em lugar determinado ) e provinda de licores corrofivos, ha de offender os orgaôs da refpiraçad nos animaes que eftiverem incerra- dos no mefmo , e identico lugar, como ás vezes fe faz para deftruir alguns infeétos; mas iflo vem, por- que os infeétos, e todos os animaes continuamente infpiraô , e refpirad, e nefta acçad attrahem os corrofivos que o ar contém , e na attracçaô de vapores infeétos fe fuffocad. Poref- ta mefma caufa he infalutifera to- da a vizinhança de agoas eftagna- das, e paludo(as,
Além dito o ar involve em fi huma materia fubcilillima, mobi- hílima, e unétuofa que fe incorpo- ra com todos os acidos , e com to- dos os vapores que no ar fe encon- traô; e por iflo ficaô os acidos ( em quanto giraô no ar) indiffoluveis
na
De Architeélura Civil. 1
na agoa ; porque todo o corpo dif. foluvel perde efta aptidaó todas as vezes que fe une a qualquer un- étuofidade ; e aflim ficaô os acidos indifloluveis na agoa, e fem aéti- vidade a refpeito dos corpos alcha- linos. E de fato todas as materias oleofas retundem efficazmente a fo= lubilidade dos faes, e infringem a erofaô actual de todos os corro-
fivos Daqui vem o conhecimento pratico fobre os remedios opportu- nos contra a acçaô dos corrofivos no ventrículo de todos os animaes , cuja acçaô fe naô póde impedir me- lhor que com a prompta applicçaô de mixtos oleofos , os quaes que- brando de algum modo as pontas dos efpiculos falinos,naô fó os fazem como rombos, e debilitados , mas tambem coadjuvaô muito para os E iv lan-
72 Problema
lançar fóra, eftimulando o meímo ventriculo para o vomito. O ufo dos leites , que depois fe applicad fe- lizmente, tendem para o meímo fim de adoçarem , e enfraquecerem o vigor dos corrofivos, pelo funda- mento de conterem os leites grande parte de huma materia oleofa , e anodina, cuja unétuofidade mode- ra, e impede a força de todos os faes, e compoltos corrofivos. Além difto confta por muitos, e infalliveis experimentos , que no ar exifte realmente hum acido pri- mogenito, que he o principio ori- ginal de todos os faes que conhe- cemos : as matrizes , ou diverlos corpos, a que aquelle fal fe une, fe concentra, e aflocia, faô o donde vem, e donde procedem as diffe- renças de cada hum delles, fegun- do a qualidade dos memos corpos a que
De Architelura Civil. 3
aque fe juntaô ; porque com al- guns corpos fe une aquelle fal mais intimamente , com outros menos; recebendo varias propriedades ef- pecificas , naô fó de fi , mas dos corpos, ou Íujeitos , a que natural- mente fe in corpora.
Alguns quizeraô dar ao fal do mar a primogenitura, ou o princi- pio dos faes todos ; outros quizerad dar aquella preferencia ao acido vi» triolico, ou fulphureo, porque ef- te fal, ou acido liquiforme fe acha no ar abundantemente, donde jun- tando-fe com efpiritóe ,: ou materias oleofas fórma hum verdadeiro en- xofre, como fe obferva ao cahir do raio; porque na parte em que cahe, ou por onde pafla, fica hum chei- ro infupportavel de enxofre acezo ; fendo que nenhum enxofre póde
dar-fe naturalmente , nem compôr- fe
“4 Problema
fe por arte alguma , fem fer por meio , e por intervençaô daquel- le acido que lhe he proprio. Efte mefmo acido fe acha tambem , e bem conhecidamente nas entranhas da terra, e em todas as partes della; porque apenas ha mineral algum , em que o enxofre fe naô manifefte claramente. O fal commum naô he izento daquelle acido , como fe ad- verte na decrepitaçaô, em que o aci- do fulphureo fenfivelmente fe per- cebe. E aflim aquelle acido fe en- contra fempre na terra , no mar, no ar; por iflo muitos lhe daô a pri- mazia, e o fazem principio infor- mante de todos os outros acidos.
- Tambem fe acha no ar o acido nitrofo , o qual fe obferva nas aguas tonitruofas , as quaes, fe fe evapo- rao, ou deftillad lentamente, dei- xaô no fundo kum refiduo terref-
tres
De ArchiteéluraCivil. &s
tre, e falino daqualidade daquelle acido. Todos os vegetaes, fem ex- ceptuar algum, contém hum acido, o qual fóô lhes póde provir do ar, eflencificado à natureza de cada ve- getal; como fe colhe do fumo que exhala cada hum delles na occa- fiaô em que o fogo os faz arder, cujo fumo, por caufa do mefmo aci- do, offende os olhos dos que fe ex- poem a elle.
A induraçaô , e incorrupçad das carnes, expoítas livremente den- tro das chuminés, procede tambem do mefmo acido ; porque efte con- ferva, e livra da corrupçaô muito mais eflicazmente do que o acido do [al commum. Aquelle acido, que todos os vegetaes contém, naó pro- vém da terra onde o vegetal fe cria; porque a fuperficie da terra naô tem fal algum que fe manifeíte, ou fe
confer-
76 Problema
conferve nella indifloluvel nas agoas que paífaô pela mefma Íuperfície continuamente. Iíto fe juftifica , por- que fe em qualquer terra bem lava- da, e por confequencia izenta de todo, e qualquer fal, fe em tal terra, digo, fe femear alguma planta , ef- ta , examinada depois , ha de dar; e moltrar infallivelmente o fal que lhe for proprio. As flores, que arti- ficiofamente nafcem na agoa (ain- da que efta foffe primeiro deftilla- da > tambem, e fem intervençad de terra alguma, haô de dar aquel- le fal, ou aquelle acido que lhes for ellencial ; o qual naô podem as flores, no cafo propoito , tirar de ou- tra alguma parte , nem de outro lu- gar, fe nad do ar.
O acido nitrofo nad he con- creçaô da terra , porque no inte- rior profundo della nunca fe achou
, aquel-
De Architeiura Civil. 7
aquelle fal ; como alguns entende: raô ,ve ainda entendem hoje com menos bem fundada experiencia. He certamente producçaô do ar, for- mada na Íuperficie de huma terra particular , e apta para receber, é concentrar em fi aquelle acido ad miravel, e verdadeiramente efpan- tofo pelos Íeus rariílimos , e tre- mendiflimos effeitos,
Daqui vem que a maior parte do falitre , ou nitro que nas fabri- cas da polvora fe confome , todo he artificial, cujo artifício naô con- fifte em mais do que em efpalhar fobre a fuperficie da terra outra terra calcária ,- ageregando-fe fu- perfluidades de animaes ,. e vege- taes fummamente putrefaétos ;' cu- ja mifturaiexpofta ao ar ( e. prin- cipalmente.ao vento Norte , de que relultou -dizer-fe fallando-fe do ni-
tro é
78 Problema
tro: Pentus in urero portavit) com o tempo fe incorpora a ella o aci- do do ar ,-de que provém hum ver- dadeiro nitro, concorrendo para a mefma producçaô outras circunf- tancias que acceleraô , e promó- vem a geraçaô , e appariçad da- quelle fal. Por caufa dos ingredi- entes que concorrem para a for- maçaô do nitro, .e pelo ingreflo que tem nos mineraes, chamaraô- lhe os artiftas fal animal, vegetal; e mineral, + O mefmo fuccede ás terras aluminofas, e vitriolicas , das quaes depois de extrahidos aquelles aci- dos, que tem naturalmente ; tornan- do-fe a expor ao ar livre, o cons curfa -do melmo ar faz tornar a concrecer nas mefmas terras ou- tros novos acidos da mefma natu» reza , e de igual qualidade dos pri- meiros;
De Árchiteltura Civil. vó
meiros ; ficando as terras fervindo aílim de matriz perpetua para efta- rem fempre attrahindo do ar ou- tras femelhantes producçoens.
Os Cirurgioens methodicos tambem conhecem a exiftencia do acido do ar; por iflo na cura das feridas attendem com cuidado a defendellas do contaéto immediató do ar ambiente que circúla; e ifto taô porque o at como fimples ele. mento poíla' fer nocivo, mas ports que o acido ; que contém , retarda à cura, e aggrava mais as partes of- fendidas; e quanto mais fenfivels e dé mais exquifito fentimento he a parte, em que a ferida eftá, tan- to mais fenfivel he tambem nella a impreílao do ar; porque efte juntando-fe aos humóres já defor- denados, ow degenerados por qual- quer cafo natural óu accidental,
entaô
80 Problema
entaô, o acido do mefmo ar, aug- mentando o mal, perturba a in- tençaô de quem o quer remedear. Por iflo na cura das feridas, o ob- jeéto primeiro , e principal, con- fifte em as cobrir exactamente ;: de- pois de applicado o remedio pro- prio. E com effeito muitas feridas faraô por fi mefmas fem. mendigar os foccorros da arte , mas Íó- por virtude, e forfa medicinal da na- tureza ; porém difficultofamente fa- raô eftando delcobertas., e expoí- tas ao rigor , impulfaô , ou aci- do do ar. e. E dido cf Com o que fica ponderado fe convence que no ar ha hum aci- do exiftente , perpetuo , phyíico , appreheníivel, e em certas circunf. tancias tambem vifivel; e que efté mefmo acido he como hum Pro- theu; a quem a natureza -faz to- mar
De Architeitura Civil. 81
mar infinitas fórmas , infinitas fi- guras, e infinitos modos. Efte he talvez o verdadeiro Mercurio, que os Philofóphos antigos indicaraô , fi- gurado na apparencia de huma in- domita ferpente , e outras vezes na de hum dos feus deofes fabulofos , armado do famofo caducêo , e azas talares. A efte acido do ar chamaô nitrofo os Philofophos modernos , e a elle atribuem, como privativa- mente, a fabrica, ou acçaô de ve- getar ; porém nefta propriedade , graciofamente concedida ao acido nitrofo., talvez que tambem haja fabula; fó com a diferença de fer menos antiga, e por confequencia menos refpeitavel,
82 Problema
CAPITULO V
a pois certo que ha hum acido no ar , efte acido paí- fa por conftante fer nitrofo; e tan- to, que fundados alguns naquelle principio incerto, entraraô a idear, ou inventar compofiçoens diverfas com o título de fegredos , nas quaes o nitro he ingrediente principal, e por meio delle pertendem promo- ver fingularmente todas as forfas feminaes em cada hum dos tres reinos da natureza; no reino mi- neral entrou o nitro a fazer as mais fauítuofas efperanças , como ma- teria que devia fer da celeberrima pedra Philofophal; e efta entrou tambem a fer o objeéto das mais
obfti-
De drcbiteblura Civil. 83
obitinadas indagaçoens , ainda que fempre infruétuofamente, e talvez nunca com o fruto defejado da cha- mada pedra por excellencia ; ori- gem porém de muitos inventos uti- hífimos, curiofiflimos, e admiraveis; porque, buícando-fe huma coufa que fe naô achou, acharad-fe ou- tras que fe naô bufcavad.
No reino Animal, devia o nitro fazer reculcitada a raça dos Gigantes , e prolongar confidera- velmente a vida : porém fuccedeu o contrario, porque o invento da Polvora; parece que fó veio para fazer mais diminuta , e breve a du- raçaô dos homens. No reino Vege- tal devia o nitro forçar a terra a dar muitos mil por hum, augmen- tando-lhe o vigor para produzir abundantemente ; porém tambem naô fuccedeu aflim ; porque qe
u a
84 Problema
la mãy univerfal ficou com a mef- ma fecundidade que teve fempre, nem fe fez mais liberal por fer aju- dada pelo nitro, antes efte he ca- paz de a fazer efteril, e infe- cunda,
As minhas proprias experien- cias, enaô as dos outros, em que confio poucas vezes pela multidad de apparatos menos finceros , de que os livros eftad:cheios , e em que os Authores com menos fincerida- de elcreveraô na Phyfica Chimica , eifto, ou foffe por falta da inftruc- çaõô neceflaria a refpeito dos prin-
«<ipios daquella preciofillima, e uti- hífima Íciencia, ou fofle por que- rerem occultar a verdadeira mani- pulaçaô de muitas operaçoens que defcreveraô ; as minhas experien- cias, digo ,o que me moftrarad ana- -Jyzando o nitro (que he o mefmo
que
De ArchitelluraCivil. 8s
que o falitre vulgarmente conhéci- do) foi, que efte fal he producçaõ do ar, mas naô do ar unicamente; e que contém dotes admiraveis , ne- gados inteiramente a todos os ou- tros faes , tanto naturaes , como compoftos: porém naô pude defco- brir nelle os effeitos portentofos (ex- ceptuando a fua elafticidade ) de que fazem mençaô Joaô Rodolfo Glauber , Paracelío , Becher, e outros,
- Achei aquelle fal inutil , e con- trario para promover, incitar, oume- lhorar a vegetaçao das plantas; por» que as fementes vegetantes naô ad- quirem vigor algum na infufad do nitro, antes de algum modo o per- dem, quando a infufaô he prolonga- da, e faturada com maior porçaô de fal. A infufaô das melmas fe-
mentes em outros quaelquer faes, F in ou
86 Problemã
ou fejaô fixos, ou volateis, ou fes Jaô alchalinos, ou acidos, naô tem mais efficacia que a do nitro fim- ples.
Naô obfta o fer doutrina in- veterada, e. feguida commumena te pelos melhores: naturaliftas , e ainda por muitos Phyficos moder- nos, e bem inftruídos , em que afr fentaô «todos que: o acido nitrofo he o verdadeiro. agente univerfal, e unico promotor da vegetaçaô; naô ebfta, digo, efta doutrina. porque nas materias Phyficas naô fe cons fidera a authoridade dos antigos , oú modernos; .e Íó fe attende para a authoridade da experiencia ; efta he a que decide o ponto , e naô os que trataraô delle: tudo, o que nad conf ta por huma experiencia conftante, e reiterada , he o meímo que nad fer, ou naô conftar por modo algum.
E com
De Architeétura Civil. 87
E com efeito a experiencia moftra que nenhum acido he, pro- prio para excitar a vegetaçaô ; ifto fe entende ,.naô depois de eftar cor- porizado , e determinado nefte, ou naquelle: genero de fal, mas fim tomado , ou entendido, no eftado. como primitivo , em que o acido do ar pende indeterminado ; e em que. fendo como huma materia , ou enteuniver(al.; eftá difpoíta , e apta para informar todas as materias par> ticulares,: que. tambem tem aptidad para receberem-, e tomarem-efta ouaquella fórma, :
! IRo fe comprova com o exem- plo de qualquer fal alchalino fixo 3 efte: por fi mefmo ,'e fegundo a fua idole natural, attrahe a humidade todas as vezes que fe expoem ao ar; fermenta.com os.acidos, e com elles fe reduz a hum fal, a que chamaô
Fiv neu-
88 Problema neutro; abforbe os meímos acidos, e os deftroe ; diffolve-fe em todos os licores , exceptuando os oleofos ; delle refultaô as compofiçoens fa- ponarias ; diflolve promptamente todas as materias fulphureas, e un- Etuofas ; e depois de as diflolver , as larga, e faz precipitar ao fundo do valo , todas as vezes que fe intro- duz algum acido na difloluçaô. Porém depois que hum fal al- chalino fixo fe acha vitrificado com. qualquer arêa, ou terra, jáfica per- dendo todas aquellas qualidades que lhe faô eflencialmente proprias ; e com effeito já entad naô faz effer- vefcencia com os acidos , nem póde mudar-fe com elles em fal neutro; Já naô póde diffolver os mixtos oleo- fos para formar hum coagulo, ou fabaô; já naô póde diflolver-fe na agoa , nem attrahir a humidade aé- rea;
De Architeltura Civil. 89
rea; Já naô póde fazer corrofaô al- guma ; e de hum corpo cauítico veio a reduzir-fe a hum corpo infulfo, impenetravel a todos os efpiritos, e licores corrofivos. E afim veio o fal alchalino fixo .a perder todas as fuas propriedades , e ifto facilmen- te e para fempre ; e-fem já mais poder tornar a fer, o que tinha fi- do, nem poder recobrar nunca os feus primeiros dotes; e por iflo fe lhe póde applicar o que o Poeta ie : o facilis defcenfus Averni; Noctes , arque dies patet atri janta Ditis : Sed revocare gradum , fuperasque evadere ad auras »
Hoc opus , bic labor ef.
E aflim , o dizer-fe que o acido ni- trofo contribue. para. todas. as ve- geta-
98 Problema
getaçõens , he hum entender divis natorio ; porque por nenhum «exi perimento fe faz certo ; ou verifi- fas que feja aquelle acido, e naô outro : antes parece que aquella tal prerogativa devia dar-fe ao acido fulphureo. vitriolico.; porque defte he fummamente abundante o ar; como. fe obferva commumente nos diverfos meteóros que fe fórmaõ, e:acóntecem na atmoíphera , don- de aquelle meímo acido fe mani- fefta por varios , e diverfos modos, E fe com efeito o acido nitrofo co- opéra para aquella maravilhofa ac- çaô da naturaza, póde fer; fe mais provavelmente entendermos, ou to- marmos o acido nitrofo na fua pri- meira indeterminaçaô , ifto he-no eftado potencial, mas naô depois de corporizado , ou realizado em actual, e verdadeiro nitro ; porque
“4
Ja
De Architetlura Civil. gr
jáneite grao ,,e depois de efpeci- ficado , fica certamente inhabil pa- ra vegetar, nem fazer vegetar. O referido Poeta o achou aflim na fua materia, e excellente inftrucçao da agricultura :
Semina vidi equidem multos media care ferentes
Et nitro prius, & Era put dere amurca:
Grandior ut fetus filiquis follasi- bus eljes.
Es quamois igni exiguo properãs ta maderent ,
Vids leéta diu , de multo fiectara labore »
Degenerare ramen , ne vis bumas
" na quotannis pe
Maxima queque manu legeret : fi omnia fatis
Inpeius ruere , ac retro fublapfa referri. To-
92 Problema
Todos os Authores, que efcreverad com methodo fobre a Agricultura , e que quizeraô difcorrer com mais provaveis fundamentos , aflentarad em que os faes da terra faôd os que a fertilizaô ; por iflo dizem que a terra depois de repetidas , e conti- nuadas producçoens , vem final- mente a canfar, ficando confide- ravelmente diminuta no vigor, por lhe faltarem aquelles faes que foi fucceflivamente empregando nas producçoens antecedentes , fican- do para os mais annos como hu- ma terra ufada ,.e pouco vigorofa. - Porém aquelles fuppoitos faes nunca os pude defcobrir ; e por mais que examinafle varias terras , e por varios modos, naô achei nel- Tas o fal de que fe diz depende a fua fecundidade : oque fe encon- tra fempre he huma materia inflam- a mavel,
De Archite&tura Cyvil. 93
mavel, e unfluofa, e ella analy- zada exaétamente , nad moltra fal de qualidade alguma , nem fixo, nem volatil, nem nitrofo, nem ful- phureo : dei que fe fegue que o fal, que na terra fe fuppoem » he Mi ente, que a imaginaçaô creou; e ainda que todos os Efcritores fazem mençaô delle, he porque huns fo- raõ elerevendo º mefmo que outros tinhaô efcrito já , admittindo to- dos fem exame hum Íyftema que a experiencia contradiz.
E de faéto naô ba fal > que naô feja oppofto à vegetaçaô, co- mo póde facilmente convencer-fe quem o quizer experimentar ; e if- to pelo fundamento de que todo o fal faz fufpender as acçoens ulte- riores, a que os corpos tendem na- turalmente ; 3 das quaes (fem fallar na vegetaçaô ) huma he a fermen-
taçaô e
94 Problema
taçaô, ea outra a corrupçad; def- ta todos Ífabem que o fal a impe- de, e nelle eftá o melhor meio de a impedir: a fermentaçaô tambem fica fufpendida pela introducçaô de qualquer fal, e em porçaô conve- niente, no corpo do liquido fermen- tavel. De forte, que naô fó os faes falitos (que faô os acidos) impe- dema vegetaçad, acorrupçaôd, ea fermentaçaô, mas tambem os Íaes dulciformes , como he oaflucar, e outros femelhantes.
Naô fó os faes em fubltancia fervem para impedir efficazmente aquellas tres operaçoens ; ou acções principaes da natureza, mas tam- bem o vapor delles faz o meímo effeito; porque o vapor, ou efpiri- to, que exhalaô o fal commum, o nitro, o enxofre, e todos os mix- tos que contém falacido ; impedem
a cor-
De Architeltura Civil. gs
a corrupçao , a fermentaçaôd , eain- da a melma vegetaçaô; efta total- mente fe fufpende , como fe ob- ferva nos montes, e lugares mine- raes, donde os vapores fulphureos, que dos mefmos mineraes fe exha- laô, fazem a terra efteril para fem- pre, porque os effluvios vaporo(os, falinos , e corrofivos , reduzem a mefma terra a huma qualidade cauí- tica, e infecunda.
O vapor do enxofre inflam- mado , fendo agitado em valo proprio com qualquer liquido fer- mentavel tambem (fuffoca inteira- mente a acçaô de fermentar. Def- te principio tem nafcido compofi- çoens diverfas ; e huma dellas he a que chamaô vinho Íurdo , o qual naô he outra coufa mais do que o mofto batido , ou mifturado com o vapor do enxofre acezo; € E Eca e
96 Problema
he o que enerva a aptidaô que to- do o moíto tem para fermentar , fi- cando por efte modo fem poder mudar-fe , confervando a doçura, que tem naturalmente a qual por outro nenhum artifício conhecido fe póde confervar melhor, nem re- ter a mefma doçura taô conftante- mente.
“- Eaffim de nenhum acido po- demos afirmar com probabilidade raciônavel , que feja proprio para incitar, e promover a acçaô de ve- getar; porque antes por muitos ar- gumentos, e experimentos fe con- vence que todos os acidos impedem, e fuffocaô aquella mefma acçaõ, deftruindo os efpiritos feminaes de que toda a vegetaçaõ procede: e if- to , ou feja por caula da corrozad dos acidos, ou por outro qualquer principio que lhes feja natural o fa-
éto
De Architeilura Civil. oz
éto de impedir, e enervar inteira- mente a vegetaçaô , he certo, co- mo a experiencia moftra facilmente. Só temos huma objecçaõ con- fideravel , que favorece o Ífyítema aa temos reprovado , de que o aci- o nitrofo he agente progenitor de toda a vegetaçaô ; e vem a fer que o nitro Íó porfi, e em fi mef- mo, parece que vegeta , fem de- pendencia de outro algum corpo , ou femente vegetal. E com efeito, fe puzermos a difloluçaõ do nitro; feita em agoa fimples em qualquer vafo de vidro, de barro, ou de me- tal, deixando eftar a difloluçaõ fem a mover-por eípaço de alguns dias, ( contendo a agoa todo o nitro que derreter ) veremos fem fallencia , começar o nitro a fobir pelos lados do vafo que o contém, fazendo ra- mificaçoens diverlas , e.à iii de
98 Problema
de hum arvoredo criftallino , em que fe diftingue admiravelmente a figu- ra das raizes, troncos, folhas , for- mando tudo a imagem agradavel de hum boíque variado por mil mo- dos, e em que o acido nitrofo, co- mo unico architeéto , fez em pe- queno efpaço, e em ana tempo aquella meíma reprefentaçaô que a natureza faz em grande , e depois de muito tempo.
O fal commum, tratado pelo mefmo modo , faz tambem as mef- mas apparencias ; mas naô com tanta fubtileza , nem com tanta fe- melhança , nem com tanta graça; affeclando fempre a fórma cubica que lhe he propria, e que affeéta fempre. Outros faes compoítos imi= taô tambem aquellas reprefenta- çoens falinas , tomando cada hu- ma dellas a indole ou figura natu-
ral
De dribiseciura Civil. 99
ral dos mefmos faes. Porém o ni- tro fimples excede a tudo , tanto na variedade dos paizes que re- prefenta viftofamente , como na promptidaô , e propriedade com que os imita.
E fendo afim , como havemos de negar aos acidos , e principal- mente ao acido nitrofo , a potencia, ou alma. vegetativa , naô fó para vegetar , mas tambem para exci- tar vigorofamente a vegetaçad em todos os fujeitos vegetaveis ? Com que razaô havemos de difputar a aquelle acido huma acçaô maravi- lhofa, e fingular de que tantos EL- critores eruditos o fizeraô (empre author, cuja opiniaõ , feguida uni. formemente ha tanto tempo, pa- rece que tem preícrito; fe he que nas materias phyficas tem lugar a prefcripçaô ; e ainda que o naó te-
il! nha,
100 Problema
nha, he fem duvida que tanto he erro o idear hum fyftema mal fun- dado , como em arguir fem jufto fundamento aquelle que eftá ple- namente recebido.
Com tudo nem por iflo de- vemos affentar que o nitro he ve- getavel, nem que tem particular propriedade para promover qual- quer vegetaçao. Os faétos aflima deduzidos, e ainda outros que fe poderiaô expender a favor do mef- mo intento, naô induzem mais do que a apparencia de hum fyítema verdadeiro , mas naô verdadeiro com effeito. Alim Ífaô outros fyf- temas, que introduzidos ha muito tempo, e eftabelecidos tambem em plaufiveis fundamentos , e corro- borados com experimentos fingula- res, nem poriflo faô mais certos; porque de muitos phenómenos ad-
mira-
De Architeetura Civil. 101
miraveis refultaô confequencias in- certas e falliveis ; porém depois que fe examinaô maduramente , entad a verdade fe deícobre, e a illufaô defapparece.
O nitro he hum dos mixtos que tem exagitado todos os enge- nhos, pelos Íeus rariflimos effeitos, fervindo de bafe , e argumento pa- ra nelle fe fundarem muitos dog- maticos difeurfos ; deítes alguns fe fuftentaôd ainda , e com razaô plau- fivel ; outros a experiencia def- mentio, e moíftrou o contrario do que. parecia : entre os-que fubfif- tem, hum he o'que dá ao nitro a virtude vegetante ; porém talvez. que mal fundadamente ::e fuppof- to que eíta materia feja de algum modo alheia do prefente aflumpto, com tudo, como feja util a fua dif cuíflao, bom ferá que naó deixe-
G ii mos
10% Problema
mos indecifo o ponto, ainda que naô foíle mais que para defabu- zar os que inutilmente crem que o nitro he bom para promover a vegetaçaô das plantas, e que aílim períuadidos trabalhao infruétuola- mente na preparaçaô daquelle fal, para com elle excitarem a força das fementes vegetaes.
CAPITULO VL
Sfima diflemos que o nitro vegeta por fi mefmo, como
fe verifica na diffoluçaô defte fal em qualquer agoa : porém a verdade he, que a chamada vegetaçaô do nitro , naô he mais do que huma fimples configuraçaô , ou fublima- çaô do meímo fal, procurada pela exha-
De Architelura Civil. 103
exhalaçaô , ou evaporaçaõ da agoa que o contém : daqui vem a appa- rencia de vegetar que o nitro faz; apparencia viftofa com effeito, fe- melhante á arte do pintor , que imita tudo , fem dar realidade a nada ; fórma a figura, naô a cou- fa; debuxa hum corpo fem lhe dar fubftancia alguma ; tudo fica para a vifta, e nada para o fer.
O nitro pela. exhalaçaô da agoa entra a criftallizar-fe fuccelli- vamente; e nefta acçaô ;-em que fe aparta da agoa , donde eftava , vai ficando pelos lados do valo que o contém , tomando ao melmo tem- po a fórma de hum fal configura- do por diverfos modos. À irregu- laridade das fuas:partes, encadea- das humas' pelas outras , faz o ap- parato de hum bofque criftallino 5 ou de muitas arvores juntas entre
G iv fi.
104 Problema
6. Efta femelhança he fó fuperfi- cial, provinda das particulas do nitro unidas diverfamente; naô de efpirito vegetal que as configure ' nem que as informe precifamente. A mefma confufad , com que o nit- tro tende a criftallizar-fe ,. le a que vai difpondo as fuas partes para formarem huma efpecie «de labe- rinto ou! vegetaçad::
O que moíftra:fobre tudo que aquella concrefcencia naô provém de efprrito vegetante ,vhe que O nitro, depois de vegetar por aquel- le modo, naô adquire maior pe- zo , e conferva o meímo que ti- nha fem augmento algum; fendo que a verdadeira vegetaçaô fempre induz pezo maior , e maior volu- me no fujeito que vegeta ; porque o vegetar he hum principio de cref- cer , até chegar ao tamanho pros
prio
De Arcbiteblura Civil. ros
prio do corpo vegetante; e tudo o que .naô crefce ; naô adquire: mais volume nem mais pezo , e por con- fequencia: nad vegeta ; porque a vegetaçaô Ífuppoem- precifamente hum tal ou. qual augmento de ma- teria, e de fubltancia, e donde o naô ha, tambem naôd ha verdadeis ra, e formal vegetaçaô. À corrup- çaô diminue hum corpo, a vege- taçaô: o augmenta .;. faô duas' ac- goens'contrarias; huma tende a fa- zer, e outra a desfazer. - — "Temos a arvore, aque os ar- tuftas chamaô de Diana, a qual naô he outra:coufa maisc do: que huma fimples difloluçaô do. azougue na agoa forte ; nefta fe fórma huma ramificaçaô perfeita , que reprefen- ta huma arvore com frutos, e com tanta fingularidade , que caufa ad- miraçaô a quem nunca. a vio, nem conhe-
106 Problema
conhece o artifício. Parece com effeito huma vegetaçaô metallica ; porque tudo , quanto a vifta póde deftinguir , naô he mais do que hum metal perfeitamente vegeta- do.. Porém nada diflo he; porque o mais leve movimento desbarata a arvore ,re o metal fe precipita ao fundo do valo que o contém ; e além difto, o pezo do mercurio he fempre o mefmo, cuja circunf- tancia indica claramente , que na- quella operaçaôd naô ha mais do. que huma vegetaçaô illuforia, e apparente. Por outro modo, e naô fabi-
do ainda, fe póde fazer vegetar a prata em breve tempo; para o que tome-fe huma porçaô arbritraria de prata pura , e granulada , e pondo- fe em retorta de vidro forte, por fi ma fe lhe deite o azougue em por- “çaõ
De drcbiteélura Civil. 10%
çaô dobrada a reípeito do pezo que a prata tinha ; ponha-fe a retorta em fogo de reverbero, e na boca della fe lhe applique hum vafo de vidro, ou barro, com agoa fimples até ametade da fua cavidade inte- rior. Adminiftre-fe hum fogo len- to no principio , e depois fe aug- mente em fórma , que todo o azou- gue paíle por deftillaçaô ao reci- piente. A operaçaô fe faz dentro em duas , outres horas. Ficará a prata na retorta 'fingindo hum ad» miravel boíque compoifto de. arvo= res diverfas , tanto no tamanho , como na figura; em humas partes argentinas, e brilhantes , em ou- tras de hum branco .efcuro; e em outras como de hum pallido: dou- rado. * Affim parece que a natureza fe diverte a illudir os noflos olhos, eá
108 Problema
e a nofla arte, moftrando-nos o que naô he , em figuradas, e fingidas reprefentaçoens, à maneira de hum fonho dilatado ; em que entendemos ver mil imagens diferentes , mil ca- fos, e fucceílos raros, fendo. tudo unicamente effeito de huma fanta- fia turbada , e delirante, ou de hu- ma idéa vaporofa, e defordenada. Aflim fe enganaô os fentidos no ef- paço que dura hum fono turbulen-= to; e fe enganad, da mefma forte que os noflos olhos acordados fe allucinaô com objeétos' parecidos, mas nem por io verdadeiros ; tan- to-he: certo, que apenas podemos diftinguir a verdade da illufao , a imagem natural, daquella que naô he mais do que apparente.
Ifto vemos naquella vegeta- çaô da prata, em que efte me- tal; incapaz de vegetar, como os
* outros
De Architeélura Civil. 109
outros todos, e tambem como to- dos os mineraes , toma com effei- to huma fórma vegetante , finge hum prado, hum jardim, hum bof. que; e com taô viftofa fingularida- de, que oartifice fe admira a pri- meira vez que a vê, como Íucce- deo ao expertifimo Grofle alumno da Academia Real das Sciencias de Pariz meu Meftre nos experimen- tos Chimicos , e a quem devo os primeiros elementos daquella admi- ravel arte, cuja memoria me ferá refpeitavel fempre naô fó pelas vir- tudes moraes , de que era ornado , mas tambem pela candidez, e def- interefle com que quiz tomar o tra- balho de inftruirme : foi Alemaô de nafcimento, e o moflrou fer na finceridade do feu animo, imitan- do as qualidades generofas, que (ad
proprias, e naturaes naquella eru- diuffi-
TIO Problema
ditifima naçaô. Recordo-me do il- luftre nome daquelle Academico fa- mofo , cujas obras fazem o feu elo- gio mais permanente ; e neíta lem- brança fundo o faudofo modo de moftrarme agradecido á amizade fiel que fempre lhe devi.
Tinha fido o meu intento o purificar o azougue de algumas fe- zes fulphureas, que o acompanhaõ muitas vezes; ea prata me pareceo hum corpo idoneo para aquelle fim; entendendo que as partes Íulphu- reas, e unctuofas do azougue ha- viaô de unir-fe à prata, e que O azougue na deftillaçao pallaria pu- ro. Porém a experiencia defmen- tio o difeurfo ; porque o azougue naô ficou adquirindo mais pureza que aque tinha, ea prata, que fi- cou no fundo da retorta, tomou a figura vegetal, como temos dito ;
mas
De drchiteélura Civil. 11
mas nem por illo a prata vegetou, como parecia; porque pezada de- pois continha o mefmo pezo fem augmento algum : e fegundo o prin- cipio que temos eftabelecido , nad ha verdadeira vegetaçao , donde naô ha augmento de pezo, e devos lume.
Ha outro experimento raro; que indica com mais probabilida- de , que em hum corpo incapaz de vegetar, póde encontrar-fe hum efpirito formador, e femelhante a aquelle, de que refulta a vegetaçaôd. Deftille-fe o azougue doze vezes fobre o eftanho puro de Cornualha; na ultima deftillaçao ficará o efta- nho fundido no fundo da retorta ; efta fe quebre , e fe lime o eftanho. Etfte eftanho limado deitando-fe fo- bre o azougue deftillado, no mef- mo inftante as particulas do metal
fe
IIZ Problema
fe juntad , e formaô muitos corpos Íolidos, e regularmente cubicos. À figura folida, regular , e formada em hum inftante, naô tem exem- plo em outro experimento algum , e parece que denota hum efpirito agente, e vegetante. Os Phyficos poderad indagar attentamente a caufa daquella .configuraçaô metal- lica : eu defeubro a operaçaôd; ou= tros poderãd dar a razaô della, porque eu a naô fei ; por cafuali- dade a encontrei, bufcando outra coufa mui diverfa; agora facile efê inventis addere.
Com tudo o phenómeno pro- poíto naô deve perfuadirnos que o eftanho vegete por aquelle mo- do ; porque examinado depois da referida operaçaô naô tem aug- mento algum no pezo, e fica com as meímas qualidades , e proprie-
dades
De Architeétura Civil. 113
dades efpecificas de hum tal metal; a mudança fó confifte na figura, e naô no pezo , e no volume: e em quanto naô virmos que hum corpo crefce , naô podemos dizer que vegetou ; porque a mudança de figura naô he vegetaçaô ; as partes devem crefcer em volume , e pezo, fem o que naô fe póde afirmar que vegetaraô. Temos vif- to que os metaes naô tem facul- dade vegetativa. Continuemos a moftrar a mefma conclufad a ref- peito dos faes que conhecemos.
CAPITULO VI. T Odos os Authores , que efcre-
veraô da Agricultura , a ffentad commumente em que os Íaes da ter- ra
114 Problema
ra faô os que a fertilizad ; por io dizem que a terra, depois de repe- tidas producçoens, canfa, por lhe faltarem aquelles faes que foi em- pregando nas producçoens antece- dentes , ficando para os mais annos, fendo huma terra ufada, e pouco vigorofa. Porém aquelles faes nun- ca os pude achar, nem ver; e por mais que examinafle com cuidado varias terras, naô encontrei nellas os faes de que fe diz depende a fua fecundidade : talvez que outros fi- zeflem melhor exame ; porém na Phyíica cada hum eftá pelas fuas proprias experiencias, e difcorre fe gundo o que acha nellas.
O que de fa£to fe encontra na terra quafi fempre he huma ma- teria inflammavel, e unétuofa; de que refulta que muitas terras ex- poftas ao fogo ardem como o car-
vaõ ;
De Archisektura Civil. 115
vaô; e o melmo carvad de pedra naô he mais do que huma terra, em que abunda o principio fulphureo, e inflammavel que a faz arder, co- ma denota bem fenfivelmente o chei- ro ingrato , e pouco faudavel do carvaô de pedra. Outras terras ar- dem com menos fortaleza, porque nellas naô abunda tanto aquelle principio inflammavel , que he de donde procede a inflammabilidade do enxofre, e de outros mixtos fe- melhantes.
Além difto, todo o fal, de qual- quer genero que feja,he fummamen- te oppofto a toda, e qualquer ve- getaçaô, como facilmente fe póde experimentar; e ifto porque faz fuf- pender as acçoens.ulteriores, a que es corpos tendem naturalmente , ca- mo (ad (além da vegetaçaõ ) a fer- mentaçaà, e acorrupçao; porque
Hi todos
116 Problema
todos eftes tres movimentos natu- raes ficad como prezos , e fem ac- çaô, todas as vezes que algum fal compofto , ou natural fe junta a el- les: com o que fe verifica que ne- nhum acido he proprio para fecun- dar a terra.
Porém fe o acido do ar, de- pois de efpecificado , e corporizado em nitro, he inutil, e contrario a toda a vegetaçaô; com tudo tem vit- tudes fingulares , e efpantofas em outras occafioens, e em outras ac- çoens da natureza. Na Medicina naô fe dá hum melhor refrigeran- te, nem mais benigno, nem mais feguro; e das compofiçoens Phar- maceuticas, que tem por bafe o ni- tro, faô efficazes ( fendo applica- das congruentemente ) o Antiphlo- giftico , ou criftal mineral , cha- mado tambem Sz/ Prunelle. O fal
Poly-
De Architectura Civil. 117
polycreíto he excellente febrifugo , principalmente nas febres intermit- tentes. O nitro nitrado naô he de menos efficacia nas febres arden- tes.
Todas eftas compofiçoens,que nos feus principios foraô achadas, e reveladas em fegredo , depois de fe haverem vulgarizado foraô ef. quecendo de algum modo , ficando menos indicadas na pratica; talvez por naô terem Ífucceilo igual em to- dos os calos , e em todas as occa- fioens; fendo que, fe os mefmos pra- ticos ufaflem de juntar o nitro ás preparaçoens de kina, entaô veriad feliciflimos fuccellos ; e fe ilto he hum fegredo , eu o revelo aqui, fem que me embarace a razaô in- jufta , em que fe fundaô os artiftas quando , para occultarem algumas coufas uteis que defcobriraô , alle-
H ii gaô
,18 Problema
ga” como axioma aquelle que diz : «drcanum revelaram vilefcit.
No artefacto da polvora fe vê hum dos mais poderozos, e fubli- mes effeitos do nitro; o qual imi- tando a luz repentina dos relampa- gos , o ruidofo eftrepito dos tro- voens, o eftrago inevitavel dos raios, moftra fer o agente principal da- quelles corufcantes meteóros, e ló com a notavel diferença de fer a polvora , e juntamente o nitro hu- ma obra das mãos dos homens, e poder fer adminiftrado , e dirigido tambem pela maô dos mefmos ho- mens, em lugar que aqueles phe- nómenos tremendos , os elementos faô os que os compoem, e lhes daô o movimento.
Compoem-fe a polvora de nt- tro, de carvaô, e enxofre ; eftes dous ingredientes podem fer fubfti-
tuidos
De Architectura Civil. 19
tuidos por outros , igualmente in» flammaveis, e de qualidade igual : fó o nitro naô póde fer fubftituido por outro nenhum fal; porque ne- nhum ha, que tenha a fua nature- za, nem que poíla entrar em feu lugar naquella compofiçaõ ; de for- te, que ainda que naô houvefle en- xofre, nem carvaô, fempre pode- ria haver polvora , mas de nenhum modo a pode haver fem nitro.
Os Philofophos antigos ; ainda fem conhecerem a qualidade defte fal, chamaraõ-lhe Jupiter fulmi- nante, porque viraô que, eftanda junto a tados os corpos inflamma- veis, ou foflem animaes, vegetaes; ou minerães , em fentindo o ardor do fogo fazia a mefma deflagra-
aô que o raio faz. Até que hum Religiofo Chimico (fegundo a tra- diçaô commua ) querendo extrahir H iv do
120 Problema
do nitro hum efpirito mais forte, e mais activo, mettendo em retorta os tres ingredientes , eftes apenas fen- tiraô o calor do fogo , quando em acçaô repentina rompendo o car- cere da retorta , fe exhalaraô in= flammados , deixando o Chimico fem o efpirito forte que buícava , e talvez por milagre com o que tinha.
Defte phenômeno veio a naf- cer depois a polvora , naô bufca- da entaô, mas achada por acafo ; e por mais que os Phyficos fe te- nhaô empenhado na explicaçaô dos feus tremendiflimos effeitos, dedu- zindo eftes da elafticidade , expan- fibilidade, e incoercibilidade do ar que o nitro tem como comprimi- do em fi; efta explicação he: pou- co intelligivel , porque em todos os mais corpos fe dá hum ar elaf,
tico
De Architeetura Civil. 121
tico , expanfivel , e incoercivel, fer que em nenhum delles fe obferve o movimento , e acçaô local que o nitro tem todas as vezes, que eftan- do involvido em materias inflam- maveis chega a fentir o calor do fo- go. E aflim de outro principio de- vem de refultar as fuas proprieda- des eflenciaes; e Ífuppoíto que até agora fe: naô tenha defcoberto; o tempo o defcobrirá talvez, & da- bit dies, quod bora negat. Em quanto diícorremos fobre o nitro , juíto ferá dizer que naô ha para que execrar, nem abomi- nar o invento fingular da polvora com o pretexto de fer hum artifício ideado para ruina, e extincçaô dos homens ; porque refpondendo a ef- ta preoccupaçaô vulgar , póde af- firmar-fe com verdade que a pol- vora naô foi mais inventada para ex- tincçad
IZ2 Problema
tincçaô dos homens , que para a confervaçaôd delles ; aflim como ou- tros muitos artifícios, de que o ufo commum nos faz conhecer o bem; e o abufo nos faz tambem conhecer o mal, - Aquelle, que primeiro defco- brio o modo para dar ao ferro iner- to a figura de hum inftrumento agu- do ; foi tambem o primeiro que en- finou a tirar a vida com aquelle du- rilimo metal: efte na fubltancia he innocente , e ainda na figura pro- pria para o mal: a culpa fó póde eftar na maô que dirige o golpe, naô no inftrumenro que executa. À terra, que produz a rofa faluti- fera, tambem produz o opio ver nenofo; mas quem ha de culpar a terra pela qualidade que tem de fer mãi univerfal? Tudo, o que ha no mundo , he proprio para a vi- da,
De Arcintectura Civil. 14 3
da, eparaa morte: ascoufas, que tem huma propenfaô nociva , efta lhes vem mais da applicaçaô de quem fe ferve, que da fua-natus ral malignidade. A vibora mortal he antidoto de fi meíma:: tanto he certo que o bem, eo mal tem a mefma origem , o mefmo naf- cimento , e fe criaô no mefmo berço.
O ferro tanto conduz para of- fender , como para defender ; he como hum remedio, que repercúte os feus proprios accidentes ; e tu» do , o que he remedio , he permittis do quafi fempre , em lugar que o impulfo do aggreflor raras vezes tem difeulpa. Que triíte feria a con- diçaô dos homens fem o ufo daquel- le guerreiro , e tambem pacifico me- tal! O mefmo deftino tem'a pol vora ; ella fe ide, tambem de-
fende.
124 Problema
fende. Louvemos a providencia na- quelle sartificio facil, por meio do qual quiz igualar as forças def- iguaes. Hum homem ainda meni- no, ou já triftemente annolo , ou já valetudinario , e debil , que defe- za póde ter contra o que for robuf- to, mancebo, eforte? Outro de eftatura inferior , e de membros de- licados, como póde refiftr à força de hum gigante ?- Nefte cafo quem vence he a natureza , naô o esfor- go; e o render-fe fica fendo parti- do neceflario : os opprimidos ac- cufariaô juftamente o desfavor do feu mefmo fer; e injuftamente os oppreílores entenderiaô dever á re- foluçad do animo o que fó deve- riaô ao pezo do volume ; fendo que o valor ainda vencido tem mais eftimaçaô , do que o venci- mento fem valor A polvora veio
fazer
De Archivektura Civil. 125
fazer iguaes , a força a eftatura, a idade. Nos combates grandes ferve a polvora para as mefmas circunf- tancias, para que ferve nos comba- tes particulares ; porque fuccede ás vezes o defenderem-fe poucos contra os aflaltos de muitos: fe fe lerem as hiftorias antigas , ha de achar-fe que os confliétos entaôd du- ravad mais, e eraô mais fanguino- lentos , e nunca fe acabavad fem deftroço univerfal. Depois que a polvora entrou tambem a militar , os combates naô faô .taô obítina- dos ; como fe aquelle artifício hor- rendo fizefle: o furor dos homens mais civilizado : ao menos póde confiderar-fe a polvora como hum inimigo , cuja acçaô he de mais longe; aquele, que eftá perto, he formidavel até pelos fignaes de o em-
TZá Problema
femblante irado. E com efeito a artelharia bem difpofta , e elcon- dida, em fe deixando ver decide o dia :. os batalhoens contrarios, con tra quem ella fe dirige, faô os pri- meros que baixando as armas , e eftandartes acclamaô a vitoria. Que felicidade de vencer ,' e tambem que felicidade de ficar vencido ! a empenho fe conclue antes que as lanças cheguem: a medir-fe, e an- tes que as eípadas cheguem a to» car-fe.
Bem fei que nem fempre fe compra a vitória taô barata ; po- rém bafta que fe compre alguma vez por aquellepreço ; por efte mef- ma a procura alcanfar o Capitaô experimentado.;; e efle he todo o fen-objetto ; porque fá a barbarida- de Grega media pelo fangue a qua- dade das emprezas ; hoje mede-fe
pelas
De Arcbitebtwra Civil. 127
pelas confequencias que fe feguem, naô pelos eitragos antecedentes; e tem-fe por defaire da vitoria o ha- ver cuftado muito.
“Tambem fei que aquelle arti- ficio impetuofo he prompto, e ar- rebatado , e que ainda dura me- nos, que hum abrir , e fechar de olhos ; porém na guerra que im- porta que a morte feja breve, ou efpaçofa ? taô leves fad as fuas amar- guras, para que fe haja de querer tomar-lhe algum fabor? Ao menos o mórrer de preíla he morrer fem dor», ou com muito menor. dor ; porque aflim como nada fe faz fem tempo , tambem fem tempo nada fe fente; e que fe póde .fentir no imperceptivel efpaço de hum imf- tante? O raio quando fere dá tem- po para penar? O accidente mor-
tal, que de improvifo chega , deixa os
128 Problema
os fentidos com viveza para fentir ?
ue infeliz fituaçaô he a de hum Soldado valerofo , quando , ferido mortalmente, ainda reípira; e que fervindo de theatro, ou chad, pa- ra os que vaô paílando , outros ca- daveres fobrepoítos, apenas o dei- xaô palpitar ! Só para adquirir a vi- da eterna póde conduzir hum tal tormento ; porque todo o genero de tormento, fe fe applica bem, con- duz para ditofo fim; ainda que quan- do fe padece, fó por infpiraçaô , e favor celefte póde haver lembran- ça de outra vida que fe efpera ; porque naturalmente quem fe acha agonizando , já eftá morto para tu- do , e até para faber que morre ; entaô o ter dor de haver pecca- do , fó fuccede a aquelles , de quem difle elegantemente, ainda que fa- bulofamente o difereto Mantuano:
Quos
De Architeélura Civil, 119
OQuos equus amavit - Suppiter, aut ardens evexit ad «tbera virtus.
Temos difcorrido fobre os effeitos do nitro na compofiçaõ da polvora: refta-nos dizer tambem as virtudes daquelle mefmo fal a refpeito dos metaes, ou ao menos huma das mais confideraveis. O nitro deftillado por meio dos intermedios competentes, dá o famofo efpirito corrofivo cha- mado efpirito de nitro; e quando o vitriolo, ou a pedra hume ferve de intermedio , o efpirito , que pro- vém na deftillaçaô , he aquelle a que chamamos agoa forte , cuja ferventia naô fó fe eftende ao uío das artes mechanicas vulgares, mas tambem tem lugar quotidiano na pratica da Medicina. Na agoa forte fe funda intei- I ramen-
130 Problema
ramente a Docimaíftica, ou arte de enfaiar o ouro. Enfaiar quer di- zer (nos termos daquella arte ) co- nhecer os quilates que o ouro tem, e conhecer tambem os dinheiros que tem a prata; e ifto a fim de fe fa- ber o valor de cada hum deítes metaes, cujo valor he derivado dos quilates do ouro , e dos dinheiros da prata. Da operaçaô do enfaio de- pende aquelle tal conhecimento de forte , que fem o nitro, de que fe ex- trahe a agoa forte , difhcil feria, por naô dizer impoflivel, o faber verda- deiramente, e com exaétidad o va- lor daquelles dous excellentifimos metaes: o exame, que delles fe faz, a que chamaô pelo toque, he con- Jeétural, incerto, e duvidofo , por- que pende mais da perfpicacia , e agudeza da vifta, que de outra al- guma regra certa; e tudo o que
depen-
De ArchitetiuraCivil. 131
depende de hum arbitrio regulado pelos olhos, he fallivel muitas vezes, porque igualdade naô a póde haver entre olhos diverfos : Ífendo que quando a queítaô he determinar qual feja o valor de algum metal, o mais leve engano [empre induz prejuizo grande; e por iflo às ve- zes naô fe julga bem quanto valo ouro, e quanto a prata val, fe o ar-
tita. fó fe guia pelo toque. Devemos pois ao nitro o fer a rimeira , e indifpenfavel bafe em que fe eftabelece , e funda a arte de enfaiar ; a propriedade, que tem o feu efpirito de diflolver perfeita- mente a prata, e deixar o ouro in- tafto, he fómente o de que reful- ta huma taô eftimavel , e util in- vençaô. Porém naô faô muitos os artífices que praticad aquella arte com conhecimento de principios ; Li exer-
132 “Problema
exercitaô como por tradiçaô , fe- guindo a fórma que viraô exerci- tar a outros. Vem que a agoa for- te diflolve a prata, e o ouro naô ; mas naô inquirem o porque aflim fuccede. Sabem v. g. que efta agoa forte he debil, e que outra tem a actividade neceflarta; mas faô me- nos curiofos na indagaçaô do fun- damento,porque acontece aflim. Sa- bem o methodo de extrahir da agoa forte a prata diflolvida nella , mas naô examinaô fempre fe a aprovei- taraô toda. Eftas, e outras muitas circunftancias faô com tudo eflen- ciaes , e ainda mais precifas do que podem parecer.
Porém fallando finceramente, nad fe póde culpar , nem arguir por modo algum a menos perícia do ar- tifice neíta arte, naô fó porque ha poucos meítres que tenhaô cabal in=
telli-
De Árchitetlura Civil. 133
telligencia della , mas tambem por- que os meímos metres raramente enfinaô tudo quanto fabem , como fuccede vulgarmente em todas as mais artes que tem os metaes por objecto principal; refervando para fi, e em fegredo o modo de obrar mais facil, e mais certo : a efte mo- do de obrar chamaô os Latinos: Manipulatio, e os Francezes com energia mais fignificativa chamaô a aquelle meífmo modo: Letour de main. Os meftres, que enfinaô por obrigaçaô, julgaô ( naô fei fe bem) que cumprem a obrigaçaô, enfinan- do fó aquillo , de que foraô enfina- dos, e naô o que alcanfaraõ por fi mefmos: Quod accepi , id ipfúm do. Se enfinaô mais do que aquillo de que forad inftruidos , entendem que
nefla parte ufaô de huma mera li- Liu bera-
134 Problema
beralidade. E além difto, nem to- do o Jurifcunfulto póde faber para enfinar ex Cathedra ; nem todo o Medico fabe diftinguir a enfermida- de que he dificil de curar ; nem to- do o Militar fabe difpôr bem a fór- ma de hum ataque ; e da mefma for- te nem todos os artiftas podem co- nhecer a arte por principios, e pro- fundamente ; a materialidade baíta. Todos, e cada hum nas fuas profif- foens parece que cumprem com aprenderem ; o faber menos com- mumente naô he culpa; devem ef. tudar para faber; porém fe eftudan- do o naô confeguem , ficaô incul- paveis, porque entad o vício he (ó da natureza, naô do Íujeito. O de- lito provém do animo , ainda mais que do faéto do deligto meímo: e tal- vez que o erro fó venha da mali- cia, e nunca da ignorancia ; por-
que
De Archireélura Civil. 135
ue o mal confifte em fer conheci- E e feito.
De tudo, quanto temos pon- derado , a conclufaô para o noílo intento , he, que no ar ha hum acido verdadeiro ; ou feja de qua- lidade nitroza , vitriolica , ou de outra qualquer , fempre he certo que efle memo acido corróe , dif- folve, penetra , e altéra todas as pedras que naô tem dureza capaz de lhe refiftir. Os edificios, que ef- taô nas vizinhanças do mar , ou de outras agoas correntes, ou pa- ludofas , faô os mais expoítos; por io fe ha de ver, que as pedras menos duras , de que os feus muros fe compoem , facilmente contra- hem concavidades, perdendo pri- meiramenre a uniao exterior das Íuas partes, ficando eftas divifiveis, e como pulverulentas, e aflim vaô
Liv conti-
136 Problema
continuando até que pela fuccef- faô do tempo vem a ficar desfei- tas todas as daquella qualidade. A vizinhança das agoas , enchem a atmofphera vizinha da humidade dellas, e entaô o acido do ar tem hum vehiculo continuo , e proprio que o conduz, e o faz como fub- fiftente nos corpos em que tem acçaô.
Naô fó nas pedras fe verifica aquella propofiçaô ; em outros cor- pos fuccede o mefmo , e tem a mefma Íujeiçaô; e no ferro a ve- mos praticada muitas vezes , e mais promptamente que em outro cor- po algum; por iflo para o defen- der do acido do ar, coftuma pin- tar-fe , ou olear-fe o ferro; por- que geralmente toda a materia un- étuofa repelle eficazmente o aci- do, por fer impenetravel a corro-
faôd
De ArchiteluraCivil. 137
faô mordaz daquelle agente, eim- penetravel tambem a toda a forte de humidade. Daqui vem que o ferro defcoberto , e fem defenfa, mais fe inficiona no tempo humi- do, e chuvofo, que no tempo fec- co; naô porque nefte efteja O ar fem acido, mas porque entaô lhe falta , ou tem menos vehiculo de humidade.
Alguns ferros vemos em gra- des antigas, e em fituaçaô perpen- dicular , que tem a parte inferior roida, e reduzida em ponta agu- da, confervando inteira , e illefa a parte fuperior, e com a meíma figura que teve fempre. A cauía defta diferença naô he taô facil de encontrar como parece, ainda que o faéto he certo, e perma- nente, como póde obfervar-fe fa- cilmente nas grades das Tercenas,
deita
138 Problema
defta Corte ; na figura oblonga , e perpendicular, achaô-fe algumas propriedades que outra qualquer
configuraçao, e fituaçad naô tem. Fe bem fabido que o ferro fem artificio algum mais, que o de certo tempo, adquire todas as virtudes magneticas, mas ha de fer naquella mefma configuraçao , e fituaçaô ; de forte que pofto em mafla efpherica, quadrada , trian- gular, ou outra qualquer, já naô adquire nenhum dos dotes fingulares que o Iman tem. Quantas quef- toens, e indagaçoens phyficas po- deriaô excitar-fe , fundadas naquel- le phenómeno vulgar , e fimples ! He vulgar no que refpeita a magne- tizar-fe o ferro; mas naô o he na circunftancia , de que o ferro oblon- go , e perpendicular , fica a Íua par- te inferior mais expoíta à acçaô do ats
De Architeélura Civil. 139
ar, do que a parte Íuperior. Dei- xo ao Leitor eftudiofo o cuidado litterario de indagar a caufa.
Os edifícios, que eftaô mais chegados às agoas falgadas , faô os que padecem mais , quando faô for- mados de pedra menos dura; por- que o ar mais falino daquellas agoas faz huma atmofphera quafi corrofi- va, emais propria para penetraras pedras em que a falta de dureza fa- cilita a penetraçaô ; por iflo em cer- tos caíos, e em certas enfermida- des he mui conveniente que o in- fermo naô perfifta em lugar mari- timo , e efteja apartado delle o mais que puder fer , porque a exhala- çaô falgada he naquelles cafos co- mo hum veneno que continuamen- te fe reípira, e que faz aggravar o mal confideravelmente. Peg vem que alguns quizeraô inferir que
a nau-
140 Problema
a naufea que importuna aos que começaô a navegar , procedia do fal do mar vellicando as fibras efto- machaes : porém cuido que injuf tamente fe attribue ao fal do mar hum tal effeito ; porque o mais cer- to he que o devemos attribuir uni- camente ao movimento ondulante das agoas que fe movem ; o qual perturbando de algum modo as par- tes nervolas da cabeça , efta he a que faz comprimir o eftomago, de cuja compreflaô refulta o vomito ; porém deixemos efte: ponto ao Me- dico erudito, para que naô fe diga que em tudo mettemos a fouce em feara alheia.
De Architeltura Civil. 14x
CAPITULO VIL.
À fabrica dos edificios entraô muros , e madeiras ; deítas
naô tratamos , porque a prefente difcuflaô fó tem as paredes por af- fumpto : ellas fuftentaô o pezo do edificio; e da fortaleza dellas de- pende a duraçaô ; todas as mais par- tes faô de menos confequencia , e podem fer menos efcrupulizadas fem prejuizo irreparavel.-Os mu- ros devem fer formados com mate- riaes finceros , e naô fophifticados: qualquer ingrediente improprio faz que o muro fique contrahindo hu- ma qualidade caduca , e fempre im- peditiva da fua perfeiçao. O mate- rial inficionado he como hum mal inte-
T42 Problema
interior, e perpetuo que contami- nando a fubltancia toda, naô póde admittir remedio. Logo veremos o em que confifte aquelle mal.
A pedra, com que fe fabrica nefta Corte (exceptuando alguma de qualidade branda , e conhecida- mente má ) he excellente, nem fe póde dar melhor, nem que condu- za tanto para a duraçaô; e fea if- to accrefcentarmos a abundancia della , diremos com razaô que a Providencia quiz favorecernos , an- ticipando a exiftencia , e bondade da pedra para repararmos as ruinas nas occafioens de terremotos. As pedreiras, que contém a ribeira de Alcantara, podem baftar , naô fó pa- ra reedificar-fe huma Cidade popu- lofa,mas para fe edificarem outras de novo. Da melima pedra fe faz a me- lhor cal, cuja força excede a todas;
e com
De Architeétura Civil. 143
e com efeito, fe fe examinalle a qua- lidade da cal com que fe fabrica em Londres , em Pariz, e em ou- tras muitas partes , achar-fe-hia que nenhuma dellas póde comparar-fe com a noffa tanto em aétividade, como na brancura.
Naô he menos perfeita a arêa, nem em menos abundancia ; por- que temos montes inexhauriveis e terrenos dilatados , dunde póde extrahir-fe facilmente aquelle ma- rial indifpenfavel. A aréa, que a “Trafaria tem, he moralmente in= extinguivel. Naô importa que haja de exigir mais cal; porque defta de- pende a liga , ou uniaô dos mate- riaes. Seja embora com mais algum difpendio ; a fortaleza da obra pa- ga tudo largamente. Huma defpe- za maior naô aflombra a quem quer edificar com fegurança, Que dif-
golto
144 Problema
gofto naô tem o proprietario quan- do logo depois de acabada a obra a vê mal fegura , e defeituola ? No principio todos querem edificar com economia ; porém depois o arre- pendimento he certo; e entaô he que confideramos que, por fogir a alguma maior deípeza , vimos a def- pender mais.
A boa economia nad confifte em defpender pouco; mas em naô tornar a defpender na mefma coufa. Seja Íordida a economia na fabri- caçaô de huma barraca, ou de ou- tra qualquer obra humilde ; mas naô deve fer aílim nos edifícios fum- ptuofos ; eftes fazem a decoraçaô das Cortes, e Cidades; e toda a decoraçaô ha de algum modo pro- metter a meíma duraçaô da coufa condecorada. O ornato tranfitorio ou he feminil,ou de theatro. Os tema
plos,
De Architeélura Civil. 145
plos, as habitaçoens Reaes, osmo- numentos , e edificios publicos , fen- do feios para em quanto durar o mundo , devem fer fabricados neíla intençao. He certo que nefta Corte, e para os edificios della, temos ex- cellentes materiaes ; e fendo aflim, porque razaô os edificios modernos naô tem a duraçaô que os antigos tinhaô? Será por ferem fabricados mal? Tambem naô he por efla cauza ; porque de faíto temos of- ficiaes peritos, architeétos admira- veis que fazem executar tudo com notavel perfeiçao , e fegundo .as regras mais exactas. A obra, verda- deiramente Real, de Mafra., foi huma efcola, ou academia univera fal, de donde fahiraô os metres mais feleétos. Defde aquelle tem» po até o prefente naô tem perdi- K do
146 Problema
do nada aquella arte, antes vai fempre florecendo com augmento conhecido , animada pelo Auguf- tifimo Monarca , que a protege. Sendo bem conftante que as ar- tes, e as ciencias protegidas ad- quirem mais vigor, e fe adiantad confideravelmente, a mefma protec- çaô parece que as inípira. Qual he pois o principio infaufto, por- que em tantos edificios naô cor+ refponde a duraçaô a tantas felices circunítancias ?
Já diflemos que o fegredo to- do eftá na eleiçaô dos materiaes, e em fe advertir de que importan- cia feja a pureza, e fimplicidade delles. Das pedras já diflemos tam- bem que devem fer aquellas que tenhaô a dureza neceflaria para re- fiftir à corrofad elementar. A pe- dra, que chamaô verdadeira lioz,
tem
De Architelura Civil. 147
tem aquella qualidade ; outras há, commumente, e injuftamente re- provadas, como faô todos os fei- xos das praias, e humas que pa- recem vidro, e daô fogo fendo to- cadas com o aço. Eltas pedras, que alguns artífices condenaôd dizendo que naô caldeaô por ferem frias, naô merecem femelhante reprova- çaô; porque a frialdade he qualt- dade puramente imaginaria nas pe- dras; e o naô caldearem prompta- mente naô he por ferem frias, mas porque afigura liza uniforme, e de alguma forte regular em todas as fuas fuperficies, faz que a cal naô tem donde pegue facilmente, nem donde faça preza, como faz nas outras. pedras de figura efca- broza e impolida. Porém aquellas mefmas pedras , depois de haver paíflado o tempo conveniente, e
K ii depois
148 Problema
depois de fecca aagoa , com que a cal foi amaflada, ficam taô exa- Etamente caldeadas, que naô he facil feparar dellas a aréa, e a cal com que fe fabricou o muro.
Nem póde deixar de fer ; por- que aquellas mefmas pedras, fendo lizas, e roliças, ficad como mol- dadas entre a cal, e a arêa queas circunvolve por todas as partes igu- almente , em lugar que as outras cujas figuras faô irregulares, em cada huma dellas fe daô varios, e differentes interíticios, donde tem vaons; e eftes, naô eftando cheos, ficaô as pedras menos prezas, e ligadas: e aflim parece que naô he Jufto o reprovar pedras femelhan- tes; quando aliás fad as mais pro- prias para fazer fortes, e duraveis as paredes. Só tem contra fi o fe- rem commumente mais ds
o
De Arcbiteétura Civil. 149
do que as outras; e por illo leva- rem mais porçaô de material; po- rem por iflo mefmo fazem a obra mais fortificada. Títo fe obferva nos maílames ordinarios , que fe fazem nos tanques para fuftentarem , e vedarem agoa , nos quaes os bons artifices naô querem pedras gran- des, mas buífcaô, e efcolhem as pequenas.
Temos vifto a qualidade que as pedras devem ter: paílemos ago- ra á cal, e depois paílaremos tam- bem á arêa, que faô os tres ingre- dientes indifpenfáveis na conftruc- çaô dos muros. À pedra boa ou má facilmente fe conhece ; porque nel- la naô fe exige outra circunflancia mais do que a dureza. A cal de- pende de maior exame. Compo- emfe a cal de pedras, que faô pro- prias para ferem calcinadas; por-
K ui «que
Iso Problema
que nem de toda a pedra fe póde fazer cal. As que faô fummamen- te brandas faô inuteis; as que faô brandas, mas com talou qual du- reza, fazem cal inferior , e parda; e as que faô excelfivamente rias naô admittem calcinaçaô alguma. O diamante , e as outras pedras preciofas naô «fe pódem calcinar ; por mais que o fogo Íeja violento; e dinturno. As partes, de que a na- tureza as fabricou, faô taô umi- das, e compaétas entre fi, que os poros. com que ficarad , fó daô paí- fagem à materia fubtil, e etherea, mas naô aos corpuículos do fogo ; fendo que a calcinaçaô provém de huma certa delunad de partes , caufada pela introducçad violenta, e fuccefliva das particulas igneas , que entraô a occupar os poros, ou interíticios do corpo que fe cal- cina, À pe-
De Architetimra Civil. 131
A pedra faxatil tambem naô fe calcina, mas hum fogo conti- nuo, e forte a vitrifica; pot fer repra certa que todo o corpo; que fe vitrrfica nao fe calcina ; e o que fe calcina naô fe vitrifica. Ou- tras. pedras ha que fahem já da terra vitrificadas; eftas' faô total- mente inuteis, e o maior fogo nad as póde reduzir a cal; porque a vitrificaçad he o ultimo periodo a que a natureza chega, e tambem a arte; vííto que depois de hum cor- po eftar vitrificado, ou feja artifi- cialmente,: ou feja naturalmente; nefle termo ' permanece fempre, fem admittir: mudança ou altera- çaô alguma.
Ko porém fe entende na ver- dadeira vitrificaçaô, mas naô na im- propria ; porque o chumbo; e o eftanho , depois de vitrificados , fe
K iv fe
Içã Problema
fe lhes junta qualquer materia un- étuofa, e inflammavel;da qual aquel- les metaes tornem a recobrar a par- te pghlogiftita que na fundiçaô per- derad, tornaô a apparecer, ea fer o metal que tinhaô fido. Tito aílim procede nos metaes inferio- res, e em algum dos mineraes, como o antimonio, mas naô no ouro, nem na prata, porque a per- feiçaô deltes metaes os defende fempre contra toda a acçaô do fo- go, e nelle fó fe purificaô ; de for- te, que o fogo , que deitroe tudo » exceptuando o vidro, e as pedras preciofas, que formaô huma efpe- cie de vitrificaçaô natural, deixa illefa a propria fubftancia daquel- les dous metaes; por iflo he axio- ma chimico: Quod facilins fit aurum confiruere » quam defêruere. Os metaes inferiores ie e
De Architeclura Civil. 153
fe podem calcinar, e fe calcinad com effeito facilmente, ainda que em imperfeita calcinaçad. O azar- caô naô he outra coufa mais do que o chumbo calcinado , e expof- to ao fogo até que tome a cor ver- melha. O eftanho, e ocobre tam- bem recebem a mefma alteraçaô ; porém a cal deftes metaes, ou ou- tros mineraes 5 de qualquer genero que fejaô, fó conduz para a con- feiçao das tintas, ou outros artes factos Ífemelhantes; e muitas vezes tambem para varios ufos medici naes, chirurgicos, ou mecanicos ; porém. de nenhuma forte para o noílo intento.
“Os artífices da cal conhecem muito bem quaes faô as pedras proprias para aquelle minifterio , e tambem as que o naô faô; por iflo efcolhem humas , e rejeitaô a 5
e fe
154 Problema
e fe por acafo as que faô improprias fe introduzem com as outras na operaçaô do cozimento , depois ao fahir do forno ainda eftaô na mef- ma fórma com que entrarad ; ape- nas ficaô mais quebradiças do que eraô; mas nunca reduzidas a cal, por mais que o fogo feja activo, e longo. À eftas pedras, fahidas aflim do forno,chamaõ os operarios cruas, para as diftinguir das que fahem co- zidas, ou calcinadas.
À fragilidade,que as pedras fa+ xatiles adquirem por aquelle modo, deu lugar ao engano dos que que- tem fingidamente oftentar maiores forças, que as que commumente os homens tem; para o que pondo ao fogo alguns dos mais duros feixos, e depois de excandecidos, ou fei- tos como em braza , os deitaô logo em agoa fria. Eftes feixos ficad con-
fervan-
De Architelura Civil. gs
fervando a fua propria, e natural figura; e quando fe afferece a oc- eafiaô de moftrar a pertendida for- ça, os taes fingidos alentados intro- duzem aquelles meímos feixos , pre- parados antes por aquelle modo ; e pondo qualquer delles fobre hu- ma banca forte fuftentando-o com a maô efquerda , para que o feixo naô chegue immediatamente à ban- ca ; dando-lhe com o outro punho cerrado huma pancada, o feixo fe defpedaça logo ; naô pela força da pancada que recebe , mas porque o fogo, e a agoa fria o tinha. já dif- pofto. para dividir-fe ao menor im- pulfo. Quantas artes. naô bufcad os homens para moftrarem com enga- no , e eftrategema , fuperioridade de força , fuperioridade de enge- nho , fuperioridade de poder! Mas que importa que façaô illufaô aos
outros,
156 Problema
outros , fe a naô podem fazer a fi? Seria habilidade rara fe a fi mefmos podeflem enganar ; entaô eftando livres da importunidade da confcien- cia propria, que os accufa , a per- fuafad interior lhes ferviria como de hum fonho viftofo , e agrada- vel; fó entaô teriaô goíto de fe imaginarem fortes , fendo fracos ; de fe crerem engenhofos, fendo ru- des ; e de ferem poderofos , fem poder.
A pedra lioz he a de que commumente fe faz cal, nos fubur- bios deíta Corte; e a cal que del- la provém , he de excellente quali- dade, como já diflemos : porém os mefmos homens , que a fabricaô, a perdem; naô por ignorancia na ma- nufaétura, mas por evitarem a def- peza, de que a mefma pedra necef- fita depois de calcinada, Bem fa-
bem
De Architeélura Civil. 1 57
bem os artifices que perdem aboa qualidade daquella cal , mas nem por iÍlo deixaô de a perder ; e iíto porque allim meímo a vendem, e aílim mefmo achaô quem a compre; vejamos o em que confifte a perdi- çaõ.
CE E EEE o A re, e a as eme eee um eee er,
CAPITULO JX.
Bas de calcinada a pedra
deve fer pulverizada; porque
fo depois de reduzida a pó , he que fica em termos de fer amaflada, ou mifturada com arêa. Efta pulveri- zaçaô fe faz por hum de dous mo- dos: O primeiro he expondo as pe- dras já cozidas ao ar ; aflim que fe tiraô do forno em que fe cozem; nefte eftado as particulas igneas con-
158 Problema
concentradas, e como introduzidas por força nos interíticios, ou póros Invifieis das pedras,vaô-fe lentamen- te difpondo , e como pondo-fe em liberdade ; para o que concorre a a humidade do ar que vai fuccefli- vamente occupando o lugar que as particulas de fogo vaôd deixando ; começando fempre eíta acçad pe- las fuperficies das mefmas pedras ; as quaes por efte modo fe pulve- rizaô inteiramente. A mobilidade do ar, e a humidade que contém, faô os agentes infalliveis deíta obra; e para mais a accelerar , fe vai com hum inftrumento , a que chamaô rodo, movendo as pedras de huma parte para a outra, e apartando a que eftá já pulverizada , para que efta naô impeça o contaíto imme- diato do ar nas fuperficies das pe- dras que ainda naô eftaô pulveriza-
das.
De Architeilura Civil, 159
das. Segue-fe daqui que aquellas pedras , em que o ar naóô tiver con- taéto immediato , refifte ao inten- to da pulverizaçao; de forte, que mettida huma pedra de cal em vafo proprio, que a defenda do ar, ou da humidade, tapado exactame o vafo , conferva-fe a pedra inteira fem divifaô alguma nas fuas partes, e fem perder nada da fua força. Daquelle primeiro methodo naô fe fervem os operarios nunca; naô porque faibaô a razaô funda- mental porque naô devem ufar del- le; mas porque tem outro metho- do melhor , mais facil, e mais prom- pto. Tiradas as pedras da fornalha, e eftendidas , entraô a deitar-lhe agoa por cima paulatinamente, me- xendo fempre as pedras que fe vaô alternativamente desfazendo , ere- duzindo em pó. Efte fegundo meio he
160 Problema
he com effeito o mais conveniente, naô fó pela facilidade , e prompti- daô com que fe executa, mastam- bem porque as pedras , pulverizadas unicamente ao ar , perdem quafi toda a Íua força , ficando a cal co- mo huma terra branca, inerte, e fem vigor: em lugar que as pedras, desfeitas com agoa pelo modo re- ferido , daô huma cal forte, e vi- gorofa , e com requifitos neceflarios para com ella fe fabricar fegura- mente.
A razaô Phyfica daquella dif- ferença, deve fer tirada do nafei- mento, e formaçaô da mefma cal: efta o que a faz fer cal, e o que lhe dá todas as propriedades que a cal tem, faô as particulas, ou corpuf- culos de fogo entranhadas exaétif- fimameute pelos póros, e interfti- cios das pedras quando fe cozem,
como
De ArchiteéturaCrvil. 161
como já diffemos ; de forte, que; fe- paradas as partes igneas totalmen- te; o pó da pedra, que chamamos cal, naô he com effeito mais do que huma terra defanimada , e fem efi pirito igneo , e já inhabil para o ufo que deve produzir. Aflentado efte princípio , devemos tambem af fentar em outro, e vem a fer que as pedras quanto mais de prefla , ou repentinamente fe pulverizaô , tan- to mais confervaõ as partículas ig- neas, de que depende o vigor da cal; e pelo contrario quanto mais lenta- mente fe pulverizaô, tanto mais fe diflipaô as fuas partes igneas, que faô as que a fazem vigorofa , e cau- tica.
Defta hypothefis fe fegue que as pedras pulverizadas efpaçofamente ao ar;neftefe diflipaõ,e tem lugar, ou tempo pára fe difliparem as parti
L culas
162 Problema
culas de fogo involvidas nas mefr mas pedras; e as que faô pulveri- zadas com agoa, efta por huma acçaô repentina , e prompta com- prehende , e liga em fi aquellas mefmas particulas, que de outra forte fe haviaô de diflipar, e como evaporar, Nem pareça que as pare ticulas de fogo faô fuppoftas, e fó- mente imaginadas, como muitas vezes fuccede , quando fe quer ex- plicar phyficamente algum phenó- meno, cuja caufa naô he patente, Nem fe duvide da exiftencia daquel- les corpuículos igneos, fó porque fe naô demonitraô vifivelmente; por quanto de muitas coufas fe nad póde negar a exiftencia, ainda que fe naô vejad; e bafta que fejad vif- tas pelos feus effeitos. E no que refpeita á cal, que maior demonf- traçaô, nem mais vifivel fe póde
dar
De Architeétura Civil. 163
dar dos corpuículos igneos que con- tém, do que o effeito material, e fenfivel, de fazer ferver aagoa, fem intervir outro algum calor, que o da mefma cal? E de que o calor manifeíta a prefença do fogo , ou feja activo, ou potencial, he certo.
Por muitos, e varios experi- mentos fe verifica a exiftencia das partículas igneas embaraçadas , e detidas naquelles corpos que tem difpofiçaô para as receberem, e reterem algum tempo , e ainda fem o mais leve indicio de calor; como fe obferva no mimium , chamado vulgarmente azarcaô. Efte he uni- camente chumbo. derretido, e ex» pofto ao fogo até que fique reduzi- do em pó vermelho , ficando de- pois com maior pezo do que tinha o chumbo empregado na opera»
Li çaõ;
164 Problema
çaô; cujo pezo accreícido torna a diminuir, quando o mefmo azar- caô, depois de reduzido a metal, torna a fer chumbo. Ifto mefmo fe obferva em outros corpos depois de haverem paílado pela acçaô do fogo; e o mefmo fe ha de achar tambem em qualquer pedra, fe fe pezar antes, e depois de calcinada. À compofiçaô chamada Mer- curius precipitatus. per fe, naô he mais do que hum azougue reduzi- do a hum pó rubicundiflimo: do fogo lento, e continuado fem in- terrupçaó , procede aquella cor, e tambem o maior pezo com que fi- ca; porém tanto o pezo, como a cor defapparecem em o Mercurio precipitado tornando a fer azougue por meio da reducçaôd. O oleo de vitriolo conferva fempre, e fem in- dicio exterior ; as particulas de fogo que
De drchiteetura Civil. 165
que tem concentradas em fi; e fó por alguns effeitos fe conhece a ex- iftencia dellas no corpo daquelle liquido corrofivo , e cauítico. Quem diflera que hum fogo aétivo podia unirfe eftreitamente, e confervarfe permanente em hum liquido fali- no? E que, naô tendo o vitriolo por fi caufticidade alguma, logo a ad- quire, quando o fogo reduz huma parte delle em efpirito concentra- do ! O mefmo fuccede a outros faes nativos, e ainda com mais promptidaô , e facilidade.
E de que as pedras calcinadas, fendo pulverizadas com agoa, con- fervad muita parte do feu vigor (o que naô fuccede aflim ás pedras , que faô pulverizadas pelo ar fó- mente, e fem concurrencia de agoa) tambem he certo. E com efeito as pedras calcinadas podem fer confi-
Li deradas
166 Problema
deradas em tres tempos; e emca- da hum deftes tem differente forfa : No primeiro , que he logo quando fahem do forno depois de acabada a operaçaô do cozimento, entaô tem as pedras a maior força que pó- dem ter, e a que pódem chegar ordinariamente. O fegundo , que he quando as mefmas pedras fe achaó pulverizadas ao ár, a efle tempo Já tem perdido a maior aétividade. O terceiro, que he quando forad pulverizadas logo com agua , entao tem o vigor precizo, e todo aquel- le, que a boa cal coftuma, e de- ve ter.
Defte conhecimento refulta a utilidade no ufo pratico da cal; porque efta, quando he precizo traníportar-fe para partes remotas, donde a naô ha, nem commodida- de para a fazer, he neceflario naô
a tranf-
De Architelura Civil. 167
a tranfportar em faccos , como fuc- cede ás vezes ; mas devem metterfe as pedras quando fahem do forno em caixoens, ou em barriz muito bem vedados , na fórma que fe pra- tica com outros generos, que he precizo defender da agoa, e da hu- midade. E ifto porque as pedras de cal, que fe tranfportaô em faccos , quando chegaõ ao lugar , para don- de fe encaminhaô, achad-fe redu- zidas totalmente a pó; e neíte ef- tado, fendo o ár, que paíla livremen- te pelos faccos , o que faz a pulveri- zaçaô das pedras ,a cal, que dellas provém, fica inhabil, e debilitada das fuas forças para poder fervir congruentemente ; cujo inconveni- ente he para evitar , fegundo a importancia , e confequencia da obra para que a cal deve fervir; A Phyíica naô fó fe occupa em obje-
ly étos
168 Problema
étos pompofos, e fingulares; em inveftigar o que fe pafla nas entra- nhas da terra, ou porque modo fe formaô os meteóros na efphera im- menfuravel que defcrevem; mas tambem fe emprega nobremente em aflumptos humildes, e em indagar tudo quanto he util para a econo- mia civil; e talvez que feja mais proprio, e racionavel o apprender a conftrucçaô de huma parede fim- ples, do que enfinar a fórma por- que giraô os orbes celeítes na vaf- ta regiaô do Firmamento.
Nefta conformidade devemos aflentar que a cal, para fer per- feita, e para fazerfe com ella edi- ficios permanentes, deve fer def- feita com agoa, e naô ao ar. Os antigos conheceraô bem a regra, que de qualquer leve circunftancia defprezada , naô fó fica fruítrado o
effei-
De Architetlura Civil. 169
effeito que fe procura , mas tam- bem refulta o contrario efeito, Quem vêa cal desfeita, e já redu- zida em pó , embaraça-fe pouco do modo porque foi desfeita; porque a cal naquelle eftado toda he hu- ma na figura exterior, mas he mut- to diverfa na compofiçad que deve produzir ; e efta diverfidade , ainda na Ífubftancia interior , verifica- fe por muitos experimentos cer- tos. Vejamos alguns exemplos, que comprovaô aquella propofiçao.
A cal desfeita ao ar he im- propria para o artefacto do fabãô ; he precifo tomalla ainda em pedra , para a ter com toda a fua força. So- bre aquella pedra calcinada fe dei- taô os faes alchalinos fixos, para que eftes fe liguem com os corpuf- culos igneos da meíma pedra; de- pois ; lixiviando-fe eftes dous in-
gre-
170 Problema
gredientes , a agoa , que refulta delles , fica com a qualidade neceí- faria para a feitoria do fabãô ; de forte , que fem intervir a circunftan- cia de ler a cal tomada com toda a fua força, naô adquire a agoa, à que chamaô meftra , a precifa aéti- vidade para diflolver perfeitamente a materia cebacea , ou oleofa de que o meímo fabãô fe faz. Daqui vem que alguns operarios algumas ve- zes naô confeguem a perfeiçad da obra que adminiftrad, porque def. prezaõ algumas leves circunítancias, que lhes parecem defpreziveis fem o ferem. Por iflo em outros artefa- £tos acontece muitas vezes achar-fe delufo o artífice, naô confeguin- do o intento que tinha confeguido infinitas vezes; e ilto por falta de obfervancia de hum pequeno requi- fito , que aliàs naô he pequeno,
por-
De Architeétura Civil. tzr
porque delle depende o bom exito da obra.
A pedra, a que chamaô infer- nal Alchalica , tambem naô póde fabricar-fe com a pedra de cal pul- verizada ao ar; porque nefte eíta- do (como temos dito ) tem perdi- do a fua maior força , de que aquel- le cauítico neceflita. E da mefma forte para fazer-fe o efpirito vola- til de fal armoniaco , he precifo que a pedra de cal feja pulverizada com agoa , e de frefco, e nad com mui- ta antecedencia. O mefmo fe re- quer para o celebrado Phofphor de Homberg. Para caiar deve fer cal- dada a pedra repentinamente , e em grande quantidade de agoa; por- que toda a cal, depois de pulveriza- da » Já fica ineficaz , e impropria pa- ra aquelle ufo.
E de faéto he certo que qual-:
quer
172 Problema
quer circunftancia leve, e que pa- rece de muito pouca confequencia, he com tudo eflencial em alguns ca- fos; e de ferem omittidas procede o erro de huma operaçaõ aliás bem dirigida. Exemplifiquemos ifto. A fermentaçaô do moíto exige que o vafo, que o contém, tenha na par- te Íuperior huma abertura efpheri- ca, chamada vulgarmente batoque; eíte fe he demaziado , por elle fe diflipaô os efpiritos melhores , e mais fortes; de que refulta ficar o vinho fraco, e de pouca duraçaô ; e ou- tras vezes provém hum liquido fem fabor ,a que os Latinos chamaô va- pa. Se o batoque he mais pequeno que o que deve fer, fegundo a ca- pacidade do vafo, e da quantida- de do moíto que fermenta, entaô, naô tendo o ar ingreflo , e egreflo Jivre , e facil; a fermentaçaô fica im-
perfei-
De Architetura Cívil. 173
perfeita, e o vinho, que procede della ; fempre'eftá com difpofiçad, e inclinaçaô para mudar-fe , e alte- rar-fe; porque lhe faltaô os efpiri- tos vinofos , de que depende a fua confervaçad. Sero batoque he pes queno exceflivimente , ou fe fe fe- cha de todo: por acafo , ou impru- dencia de quem cuida naquella for- te de trabalho, refulta exploíaô vio- lenta com fracçaó do vafo;ou do to- nel em que o moto eftá, De qual- quer deftas circunftancias , que aliãs parecem. de entidade pouca. pro» xém efeitos (ad diverlos ; e cons traros,
CA-
CAPITULO X.
a FE pois fammamente necefla- Hi que as pedras de cal fejaô pulverizadas com agoa , na fórma que commumente fe pratica ; mas naô com agoa falgada , nem falo- bra, como alguns fazem , e de que fuccede infallivelmente a perdiçaô da melhor cal; porque o fal , intro- duzido nella por aquelle modo , faz perder inteiramente à boa qualida- de della, por fer o fal hum mate- rial improprio , e incapaz de forta- lecer-fe em tempo algum ; vifto que tudo , o que attrahe humidade a fi, impede confideravelmente a uniaõ intrinfeca das partes , as quaes fó fe confolídaô , ou conglutinaô, depois
de
De Architetlura Cívil. gs
de expellida a humidade toda ; mas quando contém algum principio hu- mido , efte fempre eftá fazendo as partes divifiveis , e feparaveis.
E fendo aflim, como ha de ti- rar-fe da cal o fal depois de introdus zido nella, e por confequencia in- troduzido tambem na fubítancia da parede? O fal fempre tende a hu- medecer (em quanto conferva a na» tureza de fal); e por mais efcon-» dido , e abforbido entre outros mix tos, fempre fe humedece , e efta ten- dencia natural por nenhum artifício fe lhe póde remover.
Poderá dizer-fe que as paredes, que contém fal, fempre o cofpem para fóra fucceflivamente , como fe obferva em huma leviflima lanus gem albiforme, de que as paredes fe reveftem commumente nas fuas partes exteriores, e Íuperficiaes ; e
que
176 Problema
que aflim pelo decurfo do tempo ficaô as paredes perdendo o fal que contraétaraô por meio da agoa fal- gada ; com que as pedras de cal fe pulverizaraô. Efta objecçaô he me- nos concludente ; porque aquella materia falina , ealbicante , que ás vezes fe manifefta nas fuperficies das paredes, naô he o fal que ellas tem em fi, mas outro mui diverfo que o ar cria. Iífto fe comprova pelo fundamento verdadeiro de que o fal do mar, introduzido por aquel- le modo no groílo das paredes, he hum fal quafi fixo , e decrepitante ; em lugar que o fal, que vemos na parte exterior de qualquer muro , he de qualidade nitrofa, que pen- de para alchalina.
E com effeito ha muita diffea rença entre hum fal decrepitante e hum fal nitrofo ; efte deflagra
quan-
De Architeciura Civil. 77
quando o deitaô fobre o fogo, e intuméce quando propende para al- chalino; aquelle, fe o deitaô fobre o fogo ardente , eftala fucceíliva- mente , e faz eftrepito , e a ilto chamaô os artiftas decrepitar. Só o fal do mar , ou que tenha a fua mefma qualidade, decrepita ; ne- nhum dos outros faes nativos, ou compoftos , tem aquella proprieda- de; e da mefma forte fó o fal ni- trofo deflagra. Aílim fe diftinguem os faes pelos feus caracteres effen- ciaes, e diftinétivos: e da melma forte os mixtos , ou naturaes, ou artrficiaes , tambem faô reconheci- dos pela indole , e genio proprio de cada hum. E aflim quando o ar- tifta vê decrepitar hum fal, julga com certeza que he fal do mar, ou procede delle ; e quando vê de- flagrar outro , tambem julga com
igual
178 Problema
igual certeza que he nitrofo. Que admiravel arte, que com mais juí- to titulo tem por inflituto o co- nhecer os effeitos pelas fuas caufas, e as caufas pelos feus efeitos , e em que Íó a experiencia tem voto decifivo , e em que as regras, e preceitos naô vem de humana, ou pofitiva inftituiçaô , mas de huma ordem permanente, e indefeétivel! nella naô tem os fyftemas authori- dade alguma , e os fyllogifmos nad concluem quando a prova naô con- fifte em faéto vifivel, e conftante. Efta he a Chimica inftruida , ou Phyfica por excellencia.
Além da decrepitaçaô fe co- nhece o fal domar (a que chamad fal commum ) por meio da analyfe ; efta fe deriva da circunftancia , e propriedade , que daquelle fal fe exrrahe hum efpirito Íalino, que,
fendo
De Architebtura Civil. 179
fendo concentrado , he o verdadei- ro diffolvente do ouro ; e efte me- tal, que regularmente refifte , e per- fifte indifloluvel em todos os ou- tros acidos , cede facilmente ao do fal commum ; e para que os mais acidos o poflaô diflolver he precifo Juntarlhes certa porçaô daquelle fal, ou de fal armoniaco, que he hum falcompofto, e tem por bafe o fal commum.
O fal porém que as paredes coípem , he de diverfa natureza, e inteiramente contraria á do fal do mar. Aquelle fal ( como fica dito ) henitrozo, porque deitado fobre a braza, ou carvaô accelo , deflagra e arde como huma eÍpecie de pol- vora, e delle fe faz a meíma pol- vora depois de purificado , e crif- tallizado em nitro; o que aliás fe naô póde fazer de nenhuma forte
M ú com
180 Problema
com o fal commum, porque efte naô tem a elafticidade que no outro fe confidera : defte fal fe compoem a agoa forte, e de nenhuma forte do fal commum; antes, efte fe por acafo , ou por impureza do nitro fe encontra nelle, ainda que feja em minima porçaô, fica a agoa forte que provém com diverfa qualida- de, e fempre impeditiva da acçaô que deve produzir o mefmo efpiri- to do nitro.
Por iflo nas fabricas, em que fe compoem a polvora, primeiro fe purifica exaétamente o nitro, cuja purificaçaô confifte em apartarfe delle qualquer pequena porçaô que poíla ter (e que ordinariamente coftuma ter ) do fal do mar; por- que o nitro , em que fe acha alguma parte daquelle fal, deflagra fem promptidad , e fracamente á ma-
neira
De ArchitetluraCivil. 181
neira de huma lenha verde, ou hu- mida ; que fe quer queimar; e fe a parte do fal commum he grande, impede totalmente a deflagraçaõ do nitro, a que chamaô os artiftas Detonaçaõ: fuccede tambem infalli- velmente que a prata diflolvida em agoa forte, fe fe lhe deita qual- quer porçaô do fal commum, a prata fe precipita ao fundo do va- fo que contém a difloluçaô; com o que fe verifica a repugnancia, ou differença efpecifica que ha entre hum, eoutro fal.
Além de que impropriamente fe diz que as paredes cofpem para fora o fal que tem, porque efte certamente naô fahe do groflo ou fubftancia interior dos muros , mas cria-fe nas fuas Íuperficies exterio- res, a modo de huma vegetaçaõ falina , e filamentoza, e á maneira
M ini de
182 Problema
de outro qualquer nitro, que todo fe cria na Íuperficie da terra, quan- do acha na qualidade della algu- ma matriz propria para conçentrar- fe, ou embeber-fe o efpiritonitro- zo, que eftá como nadando em to- do o ambito do ár; por cuja razad falando do nitro alguns differaô : Portavit eum ventus in utero. E com effeito as paredes nad cofpem, nem lançaô de fi o fal commum: efte eftá taô ligado, e entranhado com os mais materiaes de que os muros fe compoem , que por nenhum modo fe póde defem- baraçar delles. Ifto fe prova com o efpirito, que fe extrahe daquelle fal; para o que depois de decrepi- tado fe miftura com certa porçad de qualquer terra argiloza, e me- tendo-fe em vafo proprio para a def- tillaçaô, e adminiftrado gtadual- mente
De Aribiteélura Civil. 183
mente hum fogo aftivo, naô fe fe- para do fal commum, fenaô huma limitada quantidade do feu efpirito falino , ficando a maior parte delle fem mudança na retorta , donde rezifte immobil ao fogo mais vio- Jento.
E fendo aflim ( como he na verdade ) como póde feparar-fe o fal commum fó por fi do groflo da parede, e fahir della , fe ainda hum fogo forte o naô póde reduzir a flo? O fogo he o melhor fepara- dor de todos quantos há; e o cor- po» que fe naô fepara das partes, a que eitá conjunto, por meio daquel+ le agente, naô póde fepararfe fá por fi. Daqui vem que qualquer parede, em cuja cal entrafle agoa falgada , o fal ha de permanecer nella fempre, ou até que a parede fe desfaça , € as agoas a lavem in-
iv teira-
184 Problema
teiramente extrahindo-lhe o fal que em fi continha ; porque a agoa he o diflolvente natural, e univer- fal dos faes, quando eítes naô ef- taô alflociados a algum principio oleolo , que impeíla a acçaô da- quelle diflolvente: de que fe fe- gue que em toda a parede, expolta a hum fogo ardente , fempre o fal fica confervado, e adherente a el- la; porque fó a agoa he capaz de o defentranhar , derretendo-o , € levando-o comfigo fempre.
Com outros mais experimen- tos fe póde verificar evidentemente que o fal, que as paredes cofpem , naô he o fal commum da agoa fal. gada, com que as pedras de cal fe pulverizaraô , mas he outro adven- tício novamente creado nas fuas fi- perficies, e produzido pelo ar am- biente da atmofphera ; e he como
huma
De Archireétura Civil. 185
huma florificaçad, ou bolor que fe fórma em modo vegetante na fu- perficie de todos os corpos humi- dos. Daqui tambem refulta que as
aredes, que contém fal , fempre taó mais humidas do que aquellas que o naô tem ; e.ifto conforme o tempo, e qualidade da eftaçaõ. Aquella mefma humidade attrahe avidamente o fal aereo que fe con- denfa, e toma corpo; porque re- gularmente o fal, e a humidade faô correlativos de algum modo ; e aílim como o fal attrahe a humi- dade, tambem a humidade attrahe o fal,
O afucar v. g. em quanto ef tá fecco naô póde crear bolor ; mas fe eftá fummamente humido ou por fi, ou por algum mixto adjun- t0, logo na parte fuperior começa à formar-fe aquella têa an
d>
136 Problema
fa, a que coftumamos chamar bo- lor; efta naô he mais do que hum principio de vegetaçaô , produzida pelo concurfo da humidade propria, e da humidade do ar exiftente em todo o tempo na vafta capacidade da atmofphera. Por iílo para evitar aquelle bolor defagradavel ( que na verdade he hum principio de cor- rupçaô) o remedio he guardar a coufa, que fe pertende prefervar ; em lugar fecco, e menos expoíto à humidade , como todos fabem.
DS e oe remos |
CAPITULO XI.
Aô muitos os danos , que re- fultaô do fal entranhado nas pa- redes por meio da cal feita com agoa falgada ; ou ainda falobra, como
De Archisectura Civil. 107
como em muitas partes fe pratica ordinariamente. O primeiro dano conhiíte em ficarem as paredes com huma propenfaô perpetua para hu- medecerem, naô fó nas fuas fuper- ficies, mas tambem no interior del- las. Efta humidade impede que as paredes poflaô nunca caldear , nem, adquirir aquelle grao de fequidad, que he precifo para ficarem Íolidas, e para fazer de muitas partes ag- gregadas hum fó corpo bem uni- do.
Devemos aflentar que a cal; aarêa, e a agoa faô os pregos (cos mo os artífices fe explicado ) que fervem de juntar as pedras, de que hum muro fe compoem ; fe aquel- les chamados pregos forem molles, ou tiverem difpofiçaô para amolle- cerem, e para fe naô feccarem to- talmente, que firmeza póde ter o
muro?
188 Problema
muro? Os meímos materiaes tam- bem fe podem comparar à cola ; el- ta fetiver difpofiçaô para naô fec- car de todo, como havemos de efi perar della algum effeito perma- nente? A obra grudada naô fica com vigor ; fe naô depois que a cola fécca; a coufa pregada tam- bem naô dura , fe o prego foi defei- tuofo.
Temos hum exemplo na fabri- caçaô da telha ; e do tijolo. Eltes compoem-fe de hum barro argilofo , amaçado bem com agoa. Aquelle barro aílim preparado, depois que os operarios lhe daô a figura de te« lha , de tijolo , ou de outra qualquer coufa, entraô a feccalla lentamente ao Sol, até que a cozem na forna- lha, propria para iflo, a fim de ex- pulfar della toda a agoa, e humi- dade ; que tnhaõ entrado no com»
poíto.
De Architeétura Civil. 189
polto. O cozimento he indifpenfa- vel, e nelle confifte a bondade, ou a perdiçaô da obra. He neceflario que a humidade feja expulfa intei- ramente ; porque , naô o fendo , em chovendo na telha, ou no tijolo, tornaô a desfazer-fe em barro , e lhes fuccede o mefmo que fuccede ao homem por decreto inevitavel : Pulvis es, & in pulverem reverte- ris. De forte, que o barro nad fe conglutina , nem adquire eftado fo- lido, fe naô depois que o fogo faz exhalar delle a humidade toda que fervio a difpollo para tomar efta, ou aquella fórma ; antes diflo eftá im- perfeita a obra, e fó como debu- xada , porque o barro, ainda re- tém huma propenfaô perpetua pa- ra desfazer-fe ; a perfeiçaô depen- de da exaéta fequidad. E por io,
fe
190 Problema
fe o barro for falgado , ou fe for falgada a agoa com que de prin- cipio fe amaçou , por mais que o fogo o feque, em fe apartando del- le, torna o barro a humedecer de novo em todas as Íuas partes, e ef- tas entraô de novo a defunir-fe , e a perder infenfivelmente a uniad que tinhad, e vem a fer como fe tor- nafle a derreter-fe a cola , oua que- brar-fe o prego.
Porém poder-fe-ha dizer que atelha, ou tijolo naô fe desfazem na agoa : ifto aflim he; mas por- que ferá? he porque huma, e ou- tra coufa depois de cozidas perfei- tamente adquiriraô huma uniaõ tal em todas as fuas partes difgrega- das, que já a agoa as naô póde di- vidir, nem apartar. Pelo cozimen- to adquírio o barro differente natu- reza que a que tinha. Antes de co-
zido
De Architethira Civil. 191
zido exaftamente póde o barro tor- nar a fer o que de antes era; mas depois naô póde retroceder. Às ac- çoens da natureza caminhaô fuc- ceflivamente para hum fer diverfo. A folha de huma planta já naô pó- de tornar a fer humor; o fruto já naô póde tornar ao eftado de ver- dura.
O vidro v. g. compoem-fe de hum fal alchalino fixo, e dearêa pura. Eítes dous ingredientes fen- do mifturados , e expoítos algum tempo ao rigor do fogo, vitrificad- fe, e fazem a materia do vidro que vemos commumente. Quem dirá, a naô fer conftante, e bem vulgar o artefato , que hum fal alchalino fixo podefle entrar na compofiçaã do vidro? Aquelle fal, e arêa faô corpos naturalmente opacos ; O Vie dro he clariflimo , e diáphano , e
póde
192 Problema
póde refleQir os objeêtos por meio da interpofiçaô de qualquer corpo lucido; aarêa, e o fal naô tem fe- melhante propriedade. Que diffe- rença naô vai de hum vidro crif- talno a huma arêa ingrata ! À agoa Forte diílolve a aréa, mas O vidro refifte fempre a toda a actividade dos licores corrofivos. O falalcha- lino fixo contém huma pungentiffi- ma acrimonia; o vidro naó tem fa- bor algum; he infipido totalmente, Para onde foi a acrimonia daquelle fal depois de vitrificado ? Se alguem differ que o fogo foi o que tirou a aquelle mefmo fal a fua acrimonia cauítica, engana-fe; porque todos os faes alchalinos fi- xos , fem exceptuar nenhum , quan-= to mais tempo eftaô ao fogo, e em fufaô , tanto mais fe fazem acrimo- niofos ; e de tal forte, que ainda os faes
De Architelura Civil. 193
faes unicamente acidos, excitados continuamente pelo fogo , mudaô- fe para alchalinos, mas nunca de al- chalinos para acidos. Da perfeira uniaô daquelle fal com arêa re(ul- ta o vidro, e defte os ingredientes receberaô , fó pela acçaô do fogo, propriedades contrarias ás que ti- nhaô antecedentemente , e natural- mente, A farinha, depois de cozida em paô , recebe novas propriedades ; e perde as que antes tinha ; era hum corpo fermentavel, depois fi- ca incapaz para nunca mais entrar em femelhante alteraçaô ; a difpo- fiçaô, que tinha para fermentar, fe lhe acabou, e difipou aflim que fermentou huma fó vez. O mofto antes de ferver naô dá na deftilla- çaô nem huma pinga de liquido inflammavel, a que chamamos ef- pirito
191 Problema
pirito de vinho; porém depois dê fermentado, o mefmo mofto exhi- be copiofamente aquelles efpiritos admiraveis. Que eftupendas diffe- renças naô notamos no molto fim= ples, e no efpirito que procede delle depois de fermentado ! antes diflo he hum liquido doce, e inca- paz de inebriar; depois de fermen- tar perde confideravelmente aquella doçura natural , e tem aétividade para fobir á cabeça promptamente por caufa dos efpiritos que adqui- rio na fermentaçao ; porém elles mefmos efpiritos que, em quanto ef- taô no vinho, fazem titubear, ow inebriar , depois que fe feparaô delle, já naô tem a mefma força para perturbar o cerebro, nem mo- ver defordenadamente os efpiritos
animaes. Aflim he o tijolo, atelha, e outros
De Architeétura Civil. 19s
outros váfos de femelhante compo- fiçaô. Antes do feu perfeito cozi- mento conferva o barro a pro- penfaô que tem para desfazer-fe na agoa; mas, depois de huma vez cozido , perde aquella primeira qua- lidade ; póde entaô quebrar-fe, mas desfazer-fe naô; conferva a fragi- lidade, naô a deliquefcencia. E he para notar que quando a te- lha, ou o tijolo fahem do forno mal cozidos , já naô tem remedio aquelle mal; porque, ainda que tor- nem para o forno, já mais podem receber o perfeito cozimento que faltava; a remiflãõ, ou intercaden- cia do fogo , faz arruinar a obra; nem fe póde melhorar, ainda que depois feja adminiftrado hum fogo aétivo, e continuado; elte devia fer fuccelivo, e naô interpolado ; por huma mefma acçaô, e naô por
u mui-
196 Problema
muitas intercadentes. E nelte efta- do ficou o barro , de que a telha, ou o tijolo fe compoem , confervando a aptidaô nativa para desfazer-fe na agoa.
O mefmo fuccede na calcina- gaô da pedra; fe nefta, depois de excandecida , o calor remitte, e O forno algum tanto esfria, já da- quella pedra fe naô póde fazer cal, ainda que o calor, que depois vier; feja ainda mais violento , e forte. He neceflario que o fogo feja igual continuadamente , e naô fufpenda a fua actividade; porque fe chega a embrandecer confideravelmente , Já a pedra fica inutil, e perdida para aquelle minifterio. Os artifi- ces conhecem efta regra , porém naô fabem a razaô theorica por- que aflim fuccede ; e para a dar- mos aqui, feria neceflario apar-
tar-
De Architeétura Crxil. 197
tarmo-nos muito do [ujeito.
Só diremos para utilidade com- mua, que toda a pedra que pelo modo referido , fica inutil para a fabricaçaô da cal tambem fica in- util totalmente para a fabricaçaô dos edificios, e geralmente para toda , e qualquer obra; porque a pedra, de qualquer genero que feja, de- pois de excandecida ao fogo , fica <ontrahindo huma tal fragilidade , que logo quebra, e cede ao me- -nor impullo, e abaixa com qual- quer pezo fobrepofto ,» e fe desfaz em pequenas partes todas as ve- zes que a agoa, ou a humidade chega a penetralla. Daqui vem que toda a pedra, que paílou por al- gum incendio, em que chegou a ex- candecer, fica inhabil, e incapaz de fervir para outros nfos femelhan- tes; Íó póde fervir como arêa pu-
Ni rã,
198 Problema
ra, fe for pizada, e reduzida em pó groffeiro. Parece que fica manifeíto que o fal commum introduzido na pare- de por meio da agoa falgada , com que as pedras “de cal fe pulverizaõ, he o que impede que a parede fe- que inteiramente, e he o que a tem em hum eftado continuo de mudan- ça, ifto he de mais; ou menos hu- midade; e à maneira de hum ba- rômetro fegue as mutaçoens atmo- fphericas do anno; e fe altéra à pro- porçaõ das eftaçoens. Ito vem, co- mo já diflemos, da qualidade inven- civel que o fal tem para attrahir o humido do ar ; e de faéto o attrahe com mais forçado que o iman o ferro. Digo com mais força, por- que o iman para attrahir o ferro, he neceflario que efteja , ou ache ferro dentro da efphera da fua aéti- vidade;
De Architeétura Civil. 199
de; em lugar que o fal nunca ef- tá fóra da efphera da actividade do ar.
E com effeito o fal ainda que dividido em partes minutiflimas , e involvido em outros corpos , pelos póros defles mefmos corpos attrahe o at, e juntamente a humidade que o ar contém; e como oar he hum fluido , cuja humidade he infe- paravel , e inexhaurivel , por iflo o meímo he attrahir o ar, que at- trahir a humidade delle; e he certo que naô ha ar fem humidade, nem humidade fem agoa. Afim o en- tendeo o excellente Adepto Sendi- vogio quando dife : Ef in acre eccultus vite cibus , quem de nodte rorem, de die vero aquam appella- mus rarefaétam.
- Bem me lembra que poderá dizer-fe que a humidade pretendi- N iv da
aco Problema
da naô exilte, porque naô fe vê, mec cadit in fenfus ; vilto que em huma parede defmanchada, ainda que efta foíTe fabricada com cal pul- verizada com agoa do mar , nem por illo fe obferva humidade algu- ma na caliça de huma tal parede. Efta objecçaô parece mais confide- ravel do que na verdade he; por- que aqui naô fe diz , nem fe fuí- tenta que hum muro femelhante ef- teja por dentro com agoa manifef- ta, nem que a caliça delle muro moftre vifivelmente a humidade que em fi tem; o que fe diz, he, que o fal do mar incorporado na pare- de, e poíto nella por meio da cal feita com agoa falgada , ou falo- bra fimplefmente , efla tal parede fempre eftá mais, ou menos humi- da , fegundo o temperamento , e ef- taçaô do tempo,
Para
De Architeclura Civil. 201
Para prova do referido , tome- fe a caliça daquella tal parede de- molida em quantidade arbitraria, e poíta em retorta chalibeada , efta fe accommode em forno de reverbero; e applicado o recipiente, lutadas as Junturas , adminiftre-fe hum fogo proporcionado fegundo a arte;e con- tinuada a deftillaçaô , entaô fe ve- rá a porçaô de humidade , ou agoa vifivel, e manifefta , que eftava como efcondida no corpo da caliça. Depois defta operaçaô , tire-fe a meíma caliça da retorta, e depois de eftar alguns dias expofta ao ar, tepita-fe com ella a mefma opera- çaô , e (empre feha de achar agoa no recipiente, por mais que a deftil- laçaô fe repita mil vezes com a mef- ima caliça ; porque o fal, que ella contém , fempre attrahe a humida- de, por ter no ar huma fonte per-
petua
202 Problema
petua donde fempre a acha. O Poe- ta o diífe a outro intento femelhan-
te, uno avulfo, non deficit alter. Naô fuccede a operaçaô por aquelle modo, fe fe quer praticar com caliça, cuja cal naô foi pulve- rizada com agoa falgada ; porque effa tal caliça nad moftra na ope- raçaô humidade , ou agoa alguma: e ainda a caliça , que tem verdadei- ramente fal, fe efte fe lhe tira por meio da infufad , já naô attrahe hu- midade alguma; e nefte eftado , ain- da que depois de fecca efteja largo tempo expofta ao ar, nem por illo ha de dar na deftillaçaô a agoa que dava antecedentemente quando ti- nha fal , porque com efte perdeo a parte aétiva, e attraétiva , por on- de tinha difpofiçaô para attrahir. Além defte methodo vulgar , ha ou- tros que daô a conhecer que hum corpo
De Árchitetura Civil. 203
corpo quando parece izento de hu- midade,nem por iflo deixa dea con- ter abundantemente , naô por cau- fa da attracçad ; mas por outros principios igualmente naturaes.
À ponta do veado he hum cor- po folido, e tad compaéto, que ad- mitte polimento , e luítro; e ainda fendo afim, de trinta e duas on- ças de ponta de veado fe tiraô tre» ze onças de licor a que chamao Aqua cornu cervi. O papel tambem he hum corpo, que, ao parecer, he defti= tuido de humidade , e com tudo de vinte e quatro onças de papel fe ti- ra ordinariamente duas onças e meia de oleo, e treze onças e meia de efpirito phlegmatico , além da quan- tidade de humor aqueo que na ope- raçaô fe exhala. O marfim tambem he corpo duro, e baftantemente foli- do ; e que parece naô conter hu-
mida-
204 Problema
midade alguma , mas com tudo del- le fe extrahe o oleo, e o efpirito a que chamaô Elephantino. Todos os oflos dos animaes, por mais feccos que pareçaô , tambem largaõ de fi os mefmos principios oleofos , e efpi- ritos empireumaticos.
Do reino mineral fe tira humi- dade copiofa de alguns mixtos , don- de naô ha apparencia de a achar. A caparofa , depois de fecca exadta- mente, e reduzida em pó fubtil def- tillada a hum fogo violento de re- verbero, lança de fi o efpirito con- centrado a que chamaô Oleum vi- trioli. O enxofre , que pela fua un- Etuofidade repelle de fi toda a hu- midade., e a naô póde receber em feus póros, com tudo fe fe faz arder o enxofre debaixo de algum valo concavo, larga tambem o licor aci- do a que chamaô Spiritus fulpbu-
Vis
De drchiteetura Civil. 205
ris per campanam. O fublimado mercurial,que he hum compotfto fec- co, compaéto , Íolido, e pezado , depois de moido , e mifturado com o regulo de antimonio , moítra, e tambem larga a humidade criftalli- na, ecauftica , a que chamaô Bati- rum Antimonti.
Por eftes, e outros muitos ex- perimentos fe manifefta , que'ainda que a humidade neíte, ou naquel- le corpo fe naô faça diftinguir vi- fivelmente, nem por iffo deixa de exiltir nelles, e em porçaô notavel, preexiftindo com effeito naquelles corpos, donde parece naô eftar. Po- rém o que fe efconde á vifta, naô fe efconde ao fogo : efte agente voraz, impetuolo , e examinador fevero , naô deixa nada occulto, e faz appareçer o que era invifivel totalmente, :
É E Que
206 Problema
Que outra coufa fad os me- taes todos, fe naô a humidade con- Junéta á parte terrea que entra na compofiçaô natural daquelles cor- pos? Os dous metaes perfeitos tam- bem naô faô outra coufa mais do que a mefina humidade metallica , tenacilima, fixiflima, e adherente com uniaô mais forte ao principio terreítre, que os defende pertinaz- mente de toda a acçaô dos ele- mentos; Íó hum fogo aétivo os faz correntes na fundiçad ; entad mof- traô que procedem precifamente de huma humidade oleofa , porém re- duzida a hum perfeitiflimo grao de fixidaôd; o como, fó a natureza o fabe ; nós fabemos os materiaes da- quella admiravel obra, porém o modo de os compor, e preparar, naô faberemos nunca.
Por aquella maneira fe co-
nhece
De Architectura Civil. Soy
shece quea caliça tem humidade em fi, ainda que naô feja humida- de vifivel, e palpavel:.e fem buf» car argumentos Chimicos , bafta que fe faiba 4 priori que na calis ça ha fal, para que diflo fe cons clua com certeza que tambem ha humidade nella; e ilto da meíma forte com que fe conclue que don- de ha humidade ha agoa , e que donde ha agoa naô deixa de ha- ver ar. Ê: Porém ainda haverá quem di- ga que naô he facil de: perceber que, eftando o fal dentro na pare- de, e incorporado a outros mixtos; poíla lá mefmo penetrallo o ar, e imfundir-lhe a humidade que dizes mos. Efta objecçaô naô he confi- deravel ; porque fabido he que o ar penetra validamente os corpos todos; e affim he fem duvida, por-
que
208 Problema
que como naô ha corpo (em pó- ros, e eftes Ífejad permeaveis, por elles pafla , e repafla o ar conti- nuamente ; e por mais que hum mixto efteja confundido, e miftu- rado com outros de diver(a natu- reza, nada impede o ar para ins troduzir-fe nelle.
O ar com effeito penetra to- dos os corpos , e vai como circu- lando pela immenfidade de póros de cada hum. A luz, ou a mate- ria (ubtil faz o melmo; e da di- recçaô, ou obliquidade dos póros , por onde a luz pafla, relulta a va- riedade , e diferença das cores; porque a cor naô tem fubftancia propria, e naô he mais do que hu- ma modulaçaô , ou ondulaçaô da luz, tranfmittida pelo ar fubril; e efte pallando direéta, ou obliqua- mente, caufa na retina dos noilos
olhos
De Architeétura Civil. 209
olhos huma certa vibraçaô, de que refulta a fenfaçaô defta , ou da- quella cor.
Na parte ofloza dos animaes valetudinarios fe obferva em cer- tos tempos a impreílaô do ar nas dores que padecem , e que com- mumente fervem de indício certo de que o tempo fe muda, ou eftá para mudar-fe. Iíto, ou feja por- que o ar naquellas occafioens fique mais, ou menos pezado; ou feja porque, fazendo-fe mais denfo , fi- que como embaraçada a fua per- meabilidade, e faça entaô mais ni- fo, ou força para paflar por aquel- las partes , obítruidas talvez, e caloficadas ; fempre he certo que aquelle effeito vem do ar, e que efte attinge os oflos, ou mufculos fenfitivos , de que refulta a dor» naô obftante eftarem defendidos ; e
co-
a1o Problema
cobertos com todas as mais partes do animal.
O ar pois, e a humidade con- juntamente paíla , e penetra aílidua- mente os corpos todos ( exceptuan- do aquelles que eftaô vitrificados , ou que tem femelhante natureza ; porque efles taes fó fe deixaô pe- netrar pela materia da luz, a que chamaô etherea propriamente ) .e por confequencia penetra qualquer muro , por mais groflo , e folido que feja : fe dentro defle muro achar particulas de fal, ainda que eftejaô divididas em partes minutiflimas , ha de humedecellas precifamente ; porque os mais mixtos;a que fe achaô encorporadas , e como confundi- das, naô as livra da impreflaô do ar, nem da humidade que contém. Naô digo que as humedeça na mef- ma fórma, e no meímo efpaço de
tempo
De Archite&tura Civil. 11
tempo em que o fal humedeceria, fe eftivelle (ó , e fe eftivefle livre- mente expoíto á acçaô do ar, eda humidade ; porque entaô correria liquido, Fluerer in deliquium , co- mo fe explicaô os artiftas; mas re- cebe a humidade fufficiente para im- pedir que a cal fe conglutine , e de algum modo fe petrifique com a aréa.
Porém antes que paílemos a di- ante, moftremos por alguns expe- rimentos que o ar, e a humidade penetrad as paredes com effeito ; o que melhor conheceremos por al- guns exemplos , ou argumentos bem fabidos. ar he hum fluido, ou vehiculo univerfal; elle nad fó le- va a humidade por onde pafla, ea vai transmittindo aos corpos que tem aptidaô para a receberem , mas até conduz os átomos invifiveis,que con-
Oii fidera-
bt) Problema
fideramos fahir da pedra magneti ca. Sobre huma mefa fe efpalhem algumas agulhas de ferro, ou aço, ou tambem a limalha de cada hum daquelles dous metaes ; e paflando- fe pela parte inferior da banca hu- ma pedra magnetica vigoro(a , ver- fe ha que asagulhas, ou limalha fe- movem fegundo o movimento in- ferior da pedra. Nefte experimen- to quem he que conduzio os áto- mos magneticos para darem aquel- le movimento ao ferro , fe naô o ar, atraveílando para iflo, e vencendo o obftaculo da madeira interpoíta entre huma coufa , e outra? Por- que o ferro naô podia mover-fe, fem fer pela força exterior, e con- taéto immediato de hum agente cor- poreo (mas invifivel) que o fizelTe mover, € lhe imprimiffe de fa£to a acçaô de hum movimento local. N E
tural-
De Architettura Civil. 213
turalmente nenhum corpo fe move, fem primeiro fer movido pelo en- contro, ou choque de outro corpo Já pofto em movimento : aliás o re- pouío, ou inacçaô he naturaliflimo; e nenhum corpo fe moveria , fe naô houveflem outros que o movellem. Os átomos magneticos faô com ef- feito corpos já poítos em movimen- to, e deite refulta o movimento do metal que eftava em defcanço , e ef- taria fempre em quanto o naô mo- veílem.
Porém aquelles átomos, que confideramos moventes , quem he que os leva até chegarem ao ferro que fazem mover? Quem he que os traníporta, e os introduz pelos póros invifiveis da madeira até que encontrem o ferro, para o fazerem mudar de lugar , e de direcçaô? Só o ar tem movimento perpetro ; €
O sn por
214 Problema
por io tudo aquillo que o ar con- tém, ou que fe póde fuftentar no ars gira perpetuamente ; porque o ar, que fe move, faz mover tudo quanto fe acha nelle, fe o pezo naô he defproporcionado , porque en- taô o pezo tem mais força para fuf- tentar-fe immobil, do que o ar tem para o fazer mover. Mas porque fe- rá perpetuo o movimento do ar, naô o fendo o das outras coufas? Parece que a razaô he, porque o movimento do ar provém daquelle primeiro impulfo que o Divino Ar- chiteéto do Univerfo imprímio em todos os principios na ordem da creaçaô; o movimento pois,que vem de huma origem poderoza infinita- mente , naô póde ceflar , fe naô cef- fando tambem a ordem da nature- za; e fó o mefmo Architeéto , que infundio no ar a acçaô de fe mo-
ver,
De Architeélura Civil. 215
ver, he quem a póde fufpender ; porque o corpo, que fe move, fem- pre he á proporçaô da força, que o faz mover : e quando a força he in- finita , como ha de parar o movi- mento ? O fim das coufas foppoem hum principio limitado; e naô aquel- le, que naô tem limite,
Daquelle experimento da pe- dra magnetica , a que chamaô com- mumente de cevar , abuzaraô mui- tos fazendo crer aos inexpertos que o movimento das agulhas procedia de caufa fobrenatural , naô proce- dendo fe naô naturalmente. Aflim veio a meíma Phyfica a fervir pa- ra introduzir erros populares ; e foi precifo, para os conhecer , naô Íó que as fciencias fe adianta flem , mas que ficaffem de algum modo mais commuas ; porque para defabuzar
a todos he neceflario que todos fai- O iv baô
216 Problema
baô o em que confie o abufo. A tinta chamada fympathica , tam- bem faz hum effeito femelhante , e raro, fendo que exige mais arte pa- ra a compôr. Em tudo tem o ar ac- sad, e dirige (como temos dito) os átomos da pedra magnetica (fe he que os tem como fe diz) e mo- ve os feus effluvios , ou turbilhoens (fe he que os ha.) à
O oleo de vitriolo deflegma- do, e poíto em parte fummamente refguardada , e fecca, fempre cref- ce em pezo pela humidade que at- trahio do ar. O tartaro alchaliza- do , ou qualquer fal alchalino fi- xo, tem o meímo creícimento, e pela mefma caufa. O infbramento chamado Thermômetro indica o pe- zo, e variaçoens do ar, por mais que aquelle mefmo utiliflimo inf- trumento , elteje bem cerrado , e
delene
De Árchiveétura Cívil. 217
defendido exatamente contra as imprefloens da atmofphera , ou ar exterior.
Fica pois conftante que o fal entranhado nas paredes, por meio da cal pulverizada com agoa do mar, attrahe a fi continuamente a humidade aerea ; cuja humidade impede que a cal fe petrifique com a arêa, e que faça com ella hum corpo folido ;-e por confequencia as pedras , de que os muros fe com- poem , naô podem achar na cal hum ligamento forte que as con- tenha. Daqui vem, que em fe mo- vendo a terra, ainda que as pedras fe naô moaô , moem-fe porém a cal, e a aréa que ferviaô de as prender, e ligar eftreitamente , ficando por io mefmo as pedras como foltas, e divifiveis, e juntamente em efta- do de fe fepararem humas das ou-
tras»
218 Problema
tras, arruinado aílim, e cahido o muro que Íuftentava o edificio.
CAPITULO XII
C Hamei petrificaçad a aquella
uniad exacta que fe fórma en- trea cal, ea arêa, de que reful- ta hum concreto duro, continuado nas fuas partes , impenetravel à agoa , e que em muitas circunf- tancias tem huma natureza feme- lhante á da mefma pedra. E com effeito, fe fe amaçar huma parte de cal, pulverizada com agoa doce, com duas partes de arêa fina, que naô tenha barro, nem participe de agoa falgada , ver-fe-ha que a agoa, com que aquelles dous mixtos fe amaçaraô , em breve tempo fécca; e de-
De drcbnetura Civil. 41 g
e depois de poucos dias fica tudo reduzido a hum corpo Íolido , re- fiftente á agoa , e apartando-fe della ; como fe fofle huma pedra verdadeira. Aflim o notou o dou- tilimo , e experientifimo artifta Jorge Ernefto Stahl na fua Phyfica ca Mechanica pag. 137. $. 5. em que diz:
Communiter enim notum ef? , quod calx tanta aque portione, ut pul- tis confifentiam referar perfufa » aqua bac fuccefione exfpirante, in Japideam duritiem concrefcat. Con- tras fiplurima aqua perfundatur , illaque decanterur , aut lento fal- tem aeris tepore divaporet, calx slla plane friabilis, é pulverm-
lenta remaneat.
Porém fe a referida compofiçaô fe praticar com algum daquelles ma- teriaes,
220 Problema
teriaes , em que entre de algum modo o fal commum , ou outro qualquer , ver-fe-ha que em todo o tempo a agoa a ha de penetrar , ou mais ou menos , fegundo a quantidade , ou qualidade de fal que tiver em fi; porque o fal, de qualquer natureza que Íeja, impe- de efficazmente aquella efpecie de petrificaçad artificial. E naô fó a refpeito da cal, e a arêa impede a humidade de qual- quer fal ( ou outra humidade al- guma ) a uniad perfeita entre al- guns mixtos, mas tambem em ou- tras compofiçoens , e operaçoens fuccede o mefmo , como já diffe- mos da telha , e do tijolo, nos quaes em quanto lia humidade na maça do compoíto , e em quanto o fogo a naô expelle inteiramente, naô pó- de atelha fuítentar, nem refiftir á agoa.
De ArchiteturaCivil. ar
agoa. He neceflario que naô haja humidade:no interior das partes, e que neftas naô haja coufa que fe- ja capaz de a attrahir.
Ifto he , porque de todas as coufas conhecidas nenhuma ha , que pofla attrahir a agoa, e a hu- midade tanto como o fal; efte he o feu verdadeiro Iman ; nem ha arte alguma, por onde fe lhe tire aquella propriedade , fem o' def- truir primeiro, ejá entaô abiit na- tura falis. Daqui procedem varios artifícios economicos. V g. quan- do o azeite he mais liquido do que deve fer na fua commua, e mais propria confiftencia ( o que proce- de de conter em fi muita humida- de aquofa , e fuperflua ) para o me- lhorar , e reduzir a confiftencia me- lhor; deita fe-lhe fal decrepitado ; e mifturado tudo , deixa-fe defcan-
çar
23 Problema
car a maça do azeite, e fal; efte entaô attrahe a humidade fuperflua do azeite, ficando o mefmo azeite mais groflo , e mais proprio para os feus uzos.
O fal porém naquella conjun- çaô naô attrahe a fi oazeite; por- que a propenfaõ attraétiva, que o fal tem, he fó a reípeito da agoa, ou humidade aquofa , mas naô pa- ta attrahir humidade oleofa algu- ma. Daqui tambem procede , que quando o azeite eftá coinquinado com particulas falinas , e terreftres que o fazem impuro , e menos cla- ro, o remedio he deitar-lhe agoa quente ; efta diflolve o fal, e o con- ferva diffoluto fobre o azeite, e por “aquelle modo fe fepara inteiramen- te o fal; entaô as partes terreítres, feparadas tambem do fal, precipi- taô-fe ao fundo da vafilha , ficando
o azet-
De Archirectura Civil. 223
o azeite livre tanto de hum agore- gado impuro , como de outro Ítper- fluo.
He verdade que o azeite fó por fi he incapaz de diflolver o fal, mas efte he o que fe diflolve na hu- midade fuperflua do azeite, e com elle fe miftura de algum modo, e como fuperficialmente ; mas quan- do fobrevém maior quantidade de agoa exterior, eta juntando-fe com a que.o azeite tem demais, entaô fe feparaô ambas facilmente. Tudo vem da propenfaô invencivel que o fal tem para attrahir a agoa.; cu- 3a propenfaô fe naô tira ao fal fem o deftruir inteiramente, como fica di- ta; ede tal forte, que o fogo, que deftroe tudo , e que tem força pa- ra mudar a natureza de muitos cor- pos , naô a tem para tirar ao fal aquella mefma propenfaõ , antes lha
aug-
224 Problema
augmenta em grao fuperior ; daqui procede que hum fal, de qualquer genero que feja , que fegundo a fua indole natural attrahia a agoa fracamente , e de vagar , depois que pafla pelo fogo , e fe funde nelle, fica adquirindo mais aétivi- dade para attrahir a agoa, e mais promptamente. No mefmo fal commum te-
mos hum exemplo.. Efte fal attrahe a humidade, e fe derrete nella, co- mo todos fabem, mas naô he ra- pidamente, e com tanta velocida- de, que naô neceflite de algum con+ fideraravel intervallo. Porém fe de- crepitarmos o fal commum , ou o fundirmos ao fogo , entaô veremos a brevidade com que attrahe a hu- midade aerea, e com que cahe em deliquio totalmente. Em qualquer fal alchalino fixo fe obferva o mef- mo.
De Architeélura Civil. às
mo. Ponhamos por exemplo o fal das cinzas; eftas lixiviadas, e por efte meio extrahido dellas aquelle fal, fim humedece como todos os outros ; mas fe o fizermos paflar fe- gunda vez pela acçaoô do fogo, en- taô veremos que attrahe a humida- de muito velozmente, e á maneira de huma efponja que fe embebe na agoa. ã O nitro tambem attrahe a hu- midade, porém muito lentamente , e confervando fempre huma tal, ou qual confiftencia dura ; mas fe o fundirmos ao fogo alchalizando-o por efle modo , veremos que o ni- tro, mudando o feu primeiro genio, attrahe a humidade brevemente, e com ella corre deliquado. Alim fe moftra que nem o fogo, que aliás def- troe , e muda as propriedades effen- ciaes dos mixtos , póde mudar , nem Pp deftruir
226 Problema
deftruir a aptidad que nos faes fe encontra para attrahirem a humida- de, e fe incorporarem nella.
CAPITULO XII.
O: corpos regularmente faôd
mais , ou menos Íolidos , á pro- porçaô que contém mais, ou me- nos humidade ; porque efta intro- mettida nos interíticios porofos , im- pede a exacta conjuncçaô ; por iflo vemos, que os corpos mais Íolidos, que ha faô aquelles de que fe naô póde extrahir humidade alguma. Do mefmo principio refulta o ma- ior, ou menos pezo. De nenhum dos metaes fe póde tirar humida- de alguma vifivel , e verdadeira- mente tal; daqui vem ferem os cor- pos
De Architetura Civil. 217
pos mais pezados que conhecemos.
O ferro depois de fundido pa- rece que fica abfolutamente izen- to de humidade , naô obltante fer compofto de terreftreidades fulphu- reas; porém eftas, Íuppolíto tenhad propenfaô para attrahirem a humi- dade por caufa do acido vitríolico, que contém , efte , depois que o fo- go de fundiçaô o expelle , parece que fica a parte metallica continua- da toda, e que adquire a folidez, e compacçaô que he propria do metal.
Com tudo naô he aílim como parece; porque o ferro , por mais vezes que fe funda, nunca póde fi- car fem a parte fulphurea vitríolicas e efta he a que attrahe a humidade a fi, de que vem a ferrugem de que o ferro fe revefte fempre na fuper-
ficie que fica expofta ao ar; e por Pi io
228 Problema
lo fe cobre o ferro , para que a humidade o naô penetre tanto, ou tambem fe lhe applicaô materias oleofas , as quaes tambem fervem de defeza , para que a humidade do ar naô chegue a fazer tanta im- preflao.
Os metaes depois de excan- decidos ao fogo, ficad mais mallea- veis; e obedecem melhor á força do martello, do que eftando frios. Ifto procede naô fó porque ocalor difpoem os metaes para a fufaô, e os faz mais brandos , paflando o fogo rapidiflimamente pelos feus pó- ros ; mas tambem porque expelle exactamente o ar que nelles fe con- tinha, e expellido o ar, fica expel- lida a humidade toda, em quanto o calor dura. E com effeito em quan- to a humidade fubfite, tem o metal difpofiçaô para quebrar , e naô pa-
ra
De Architeilura Civil. 229
ra fe eftender ; nem as partes do metal fe juntaô, em quanto a hu- midade fe naô retira totalmente ; porque tem as mefmas partes como feparadas entre fi, e com obítaculo para fe unirem. ;
Ha porém algumas humidades tenaciílimas que refiftem pertinaz- mente ao fogo ; por iflo os corpos; que as contém, faô frageis fempre , nem podem fer malleaveis por mo- do , nem artifício algum. O vitrio- lo he hum daqueles corpos , o qual fendo agitado na retorta por hum fogo activo; e longo, nunca che- ga a ceder , nem a largar toda a hu- midade, ou licor corrofivo que em fi tem; e fe a operaçaô períilte 5 fahe'o oleo congelado , e criftalli- no, mas nunca inteiramente. Do azougue naô fe póde feparar a hu- midade que vifivelmente moftra, e
Pai que
230 Problema
que o faz mobil, e corrente ; por cuja razaô fe dife que o azougue era huma agoa fecca que naô hu- medece: qua manus non madefa- crens.
Se fe differ que todo o corpo vitrificado he fragil, naô conten- do alias humidade alguma , ref- ponder-fe-ha que aflim' como ha hum ar fubuil, e incoercivel, e ou- tro coercivel , e elaftico , tambem ha humidade groffeira, corporiza- vel, evifivel. Além de que o vidro naô he fragil por conter algum ge- nero de humidade , mas ( fegundo fe entende) porque a materia da fua compofiçao naô he de huma na- tureza Íó; ea diverfidade de fub”- tancias, que entraô na compofiçaô de hum mixto (ou a compofiçaõ feja natural , ou artificial) he de donde provém a fragilidade era
s
De Architeélura Civil. 231
Os dous metaes perfeitos fad fummamente malleaveis, por ferem compoítos de huma Íó , e unica fubftancia ; porque a analyfe nad tem achado nelles diverfidade algu= ma de materia, e nelles procede a regra: Ductilitas ex bommogenei- tate partium, frangibilivas ex bete- rogoneitate. Iíto he fe ha no mun= do verdadeira hommogeneidade, Sempre he certo , que os corpos terreos em fi contém humidade aétual, ou potencial; e neíta hypo- thefis naô podem coalefcer, nem in- durar-fe fortemente; porque ainda nos corpos Íolidos a humidade fó deve intervir na primordial miftura da compofiçad ; ie depois, pará que os feus ingredientes fe confolidem, ou petrifiquem , he precifo que a “humidade coníponente fe afaíte in- teiramente , e ifto á proporçaô da
Iv con-
232 Problema
confiftencia , ou induraçaô que de- ve fer propria no compoito.
Porém fe algum daquelles in- gredientes tem propençaô innata para humeder , já mais póde con- feguir-fe delles concrefaô alguma lapidofa ; porque a humidade ac- tual, e perhiftente , Íó ferve para amollecer os corpos, naô para os endurecer; ferve para os fazer di- vifiveis facilmente, naô para os fa- zer com dificuldade feparaveis.
O
CAPITULO XIV
O: corpos, por mais Íolidos que fejaô, e ainda que na fua pri- meira formatura Ífejaô hommoge- neos (ao noílo ver ) todos faô di- vifiveis por alguma humidade pro-
pria,
De Architetura Civil. 233
pria, e tirada de outro algum cor- po reduzido a hum eftado fluido : e he para admirar que para cada corpo haja hum licor, a que cha- mamos proprio, que o divide , refi- fiftindo , ou naô cedendo a outro algum licor. O ouro he o corpo mais compacto , e hommogeneo de todos quantos produz a natureza , e de todos quantos póde fabricar a arte; compofto de partes fimilares, cuja aggregaçaõ faz o corpo do me- tal, naô o compofto; porque com- pofto verdadeiramente fó he aquil- lo, em cuja formaçaõ fe diftinguem, ou podem diftinguir-fe partes con- junétivas, mas entre fi diverfas, e de diverfa natureza.
Por iflo os que efcreverad, e differad que o ouro fe formava de enxofre, mercurio , e fal, parece que naô acertaraô , ou naô quize-
raõ
134 Problema
raô que os outros acertaflem: por- que, confideradas as imperfeiçoens repugnarites entre fi daquelles tres princípios , nunca poderemos en- tender que delles refulte o mais perfeito dos metaes. O ouro pois refifte a todos os licores corrofivos, ou eftes fejad acidos , ou alchali- nos, como fica apontado aflima ; e fó cede ao acido do fal commum. À agoa forte deixa o ouro intaéto, e nefte naô tem acçaô alguma, por mais que feja efficazmente forte, e concentrada : porém fe á agoa for- te fe junta huma certa porçaô de fal commum, ou feja em fubftan- cia, ou em efpirito, fica fendo o que os artiftas experientes chamaô aqua regia, que he o proprio , e na- tural diffolvente daquelle regio me- tal. Só por aquella fimples addi- gaô perdeo a agoa forte a proprier
dade
De Architeélura Civil. 235
dade fingular que tinha para diffol- ver a prata, e adquirio a que nad tinha para diffolver o ouro.
Os outros metaes diflolvem-fe igualmente em efpiritos mais, ou menos corrofivos ; porque alguns refiftem aos acidos vigorofos e cedem aos que faô mais brandos ; aflim como tambem alguns cedem promptamente aos fortes, e refif- tem aos que faô menos aétivos. Po- rém depois de diflolvidos em qual quer diffolvente liquido , naô po- dem reduzir-fe a corpo folido me- tallico , nem tomar fuzaô perfeita, fe naô depois de eftar inteiramente expulfa a humidade do liquido que os continha: a mais leviflima por- çaô do mefmo liquido diflolvente impede a corporizaçaô , e reduc- çaô de tados os metaes; porque, como temos dito tantas vezes, a
humi-
236 Problema
humidade pghlegmatica , e fuperfi- cial, ferve de obítaculo invencivel para que os corpos tomem confif- tencia exaétamente dura, e perma- nente ; e á proporçaô da mais, ou menos humidade , que contém , faô mais, ou menos Íolidos , e tem mais, ou menos confiftencia.
De forte, que a humidade fó deve fervir de liga para unir os ex- tremos, ifto he, para unir os cor- pos que devem fazer hum corpo fó , ou hum fó compoíto. Porém depois de feita a uniaô propofta , ou pelo artifice, ou pela natureza, deve apartar-fe a humidade toda , fem deixar refto, nem veítígio al- gum de que ainda exifte alguma parte della no compofto.
He porém bem certo, que fe de qualquer mixto terreo, vegetal, mineral, ou animal, lhe apartar-
mos
De Árcbiteelura Civil. 237
mos a humidade totalmente , diflo meímo ha de refultar, ficar o mix- to reduzido em: pó : iíto fe oblerva ainda nos metaes inferiores ; por- que, poíto o chumbo, ou o efta- nho em qualquer valo ao fogo , fe eíte for diuturno , e o que bafte para fundir aquelles dous metaes , entraô a fumarem, ou lançarem de fi huma humidade volatil de natu- reza mercurial, que fe diflipa ; e o que fica depois he hum pó fub- til, feparado em todas as Íuas par- tes, e fem a mais pequena uniad entre ellas. Ifto meímo acontece na manufaétura da cal; em que fe vê que primeiro, que a pedra fe ponha em eftado de poder pulveri- zar-fe, o fogo aparta della a humi- dade, ou parte liquifiavel, a qual fe precipita ao fundo da fornalha, ou forno em que fe coze a pedra ,
cuja
238 Problema
cuja humidade junta com as partes terreas , falinas, alchalinas da lenha Já queimada, faz huma certa ma- ça a que os operarios chamaô ef. coira, ou efcoria.
O memo fuccede aos veges taes: neítes , depois que a parte in- flammavel fe diflipa em chama, e depois de exhalada a humidade to- da, fica o vegetal de tal forte dif Junéto em todo o feu compofto , que o que defte permanece he a cinza que vemos commumente: a meíma alteraçaô fuccede , e tem lu- gar nos animaes. Os oflos, que fa- zem a parte mais Íolida, e compa- éta, fe o fogo fepara delles a humi- dade , ficaô naô fó fummamente frageis, e fem dureza, mas redu- Zidos a verdadeira cinza : o meímo fuccede ás partes folidas dos pei« xes, ea todo o genero de conchas,
a que
De Archisetlura Civil. 239
a que os Latinos chamaõ offraco- dermata.
Para darmos foluçaô a todas aquellas duvidas, que parecem de algum modo encontrar o que afli- ma temos amplamente deduzido , he neceflario faber , que ha dous generos de humidade ; huma fim- plefmente phlegmatica , que deve defamparar o compofto depois de haver fervido para o formar ; e deve feparar-fe exactamente para ter lu- gar a coalefcencia , e adhefad in- tima das partes entre fi: outra hu- midade que he unétuola, e ellen- cial, e como primogenita em cada hum dos corpos naturaes; efta fe fepara com violencia, ou por for» ça de qualquer agente forte, fica o corpo disjunto , e perdendo a uniaô das mefmas partes , de que provém a cinza. Eftas duas humi-
dades
240 Problema
dades diferem tanto na razaô dos feus principios, que (empre confer- vaô propenfaô para fe adverfarem, e como fugirem huma da. outra , pelas fuas diverías naturezas , e fes gundo as fuas primeiras, e diftina étivas compofiçoens elementares. Aquella humidade unétuola he o meímo, a que os Philofophos antigos chamaraô humido radical inato, para a diftinguirem da ou- tra que entra como materialmente na organizaçaô dos mixtos; e en« tra com effeito mais como vehiculo ferviente, do que como parte ef- fencial; como inftrumento , e nad comoartifice. Da mefma humidade unétuofa , ou humido radical, fe dife: Ef? in aere ocenltus vita ci- dus» cujus fpíritas invifibilis com- gelatus melior ef? quam terra uni- verfa, E
De Architeblura Civil. sat
E de facto o alimento da vida naô confifte fó na humidade phle- gmatica que vemos; mas na humi- dade unétuofa , que naô vemos : ef- ta he inflammavel em certas circunf- tancias, etherea, lucidiflima; naô